Por que os Diabéticos e Hipertensos sofrem mais ao Coronavirus?

Por que os Diabéticos e Hipertensos sofrem mais ao Coronavirus?

As dois comorbidades mais frequentes em pacientes infectados por coronavírus são a diabetes e a hipertensão.

Sabemos que existem grupos de população mais susceptíveis a infetar pelo famoso SARS-CoV-2, e também sabemos que aqueles com comorbidades (doenças) como as previamente descritas, tem o maior risco de morrer a causa do mesmo.

O problema principal está subjacente que vivemos em uma sociedade não somente envelhecida, más também castigada pela a doença crónica.
  • Más onde esta o nexo entre metabolismo e o pior resultado da infeção?
  • Que mecanismos concretos falham ou facilitam o avance do vírus nestas pessoas com doenças de corte metabólico?
Isto é o que a última revisão de Nature Reviews Endocrinology (Bornstein et al., 2020) quer elucidar e o que os trago neste post.

Metabolismo e Infeções Virais

Como bem sabeis o SARS-COV-2 não é o primeiro vírus que nos causa problemas.

Faz poucos anos tivemos a epidemia de SARS e de MERS-CoV em meio oriente. Pois bem, em estes dois quadros, a diabetes e a hipertensão também eram as comorbidades mais frequentemente encontradas.

doenças

O CDC norte americano nos conta que a síndrome metabólico multiplica o risco de morte por  COVID-19 até 10 vezes de acordo com os últimos informes.

Deve existir por tanto algum/alguns nexos concretos entre um metabolismo danificado e a infeção viral.

Estais pensando que isto não é nada novo: a doença metabólica complica o desenvolvimento de qualquer doença, debilitando o organismo de forma generalizada.

Sim, más parece ser que também há mecanismo concretos e particulares que vinculam os coronavírus com o metabolismo.

Vamos a explicar.

Tormenta de Citoquinas

Certeza que já escutastes o término “tormenta de citoquinas” estes últimos dias.

As citoquinas são moléculas mensageiras e por si só não são nem boas nem ruins.

citoquinas

Por exemplo, as mioquinas derivadas da contração muscular são citoquinas com uma marcada ação anti-inflamatória.

No caso da infecção por SARS-COV-2, no entanto, parece que a resposta imunológica que o nosso organismo oferece ante o avance do vírus, em pacientes susceptíveis, gera um aumento brutal de citoquinas pró-inflamatórias na segunda fase da doença (existe uma primeira fase com carga viral elevada e outra segunda fase mais “imunológica” onde a carga viral já diminuiu).

Na maioria das ocasiões, e isto pode que os surpreenda, aqueles que falecem pelo coronavírus não falecem pelo vírus em si, más por causa da resposta que o seu organismo gera para eliminar o vírus.

O que acontece?

Que esta “tormenta perfeita” de citoquinas pro-inflamatórias é avivada quando existe um contexto basal de metabolismo danificado e inflamação sistémica de baixo grau.

Se o campo já estava ardendo, quando cheguem os lança-chamas arderá ainda mais com força.

É a diferença entre jogar um fósforo a uma relva ou a um frondoso bosque pulverizado com gasolina.

moléculas

A Porta de Entrada

O famoso vírus entra as células do nosso aparelho respiratório utilizando uma chave e uma fechadura.

A chave é uma glicoproteína espigada que tem na sua envoltura  e na fechadura onde se une esta proteína que é a enzima convertedora de angiotensina 2 ou ACE2, localizada na superfíce das células humanas (neste caso das células do aparelho respiratório).

As pessoas com hipertensão e diabetes tipo 2 tem maior expressão de ACE2.

Pelo que a primeira hipótese para o resultado desfavorável destes pacientes é que tem mais fechaduras nas células as que se podem unir a chave do vírus.

Se queres aprofundar desde a primeira pessoa sobre a Diabetes, faz click neste link

diabetes coronavirus

Más a coisa vai mais além

Neste caso é a conversação da Angiotensina II em Angiotensina 1-7, regulando o chamado sistema renina-angiotensina-aldosterona.

Se esta Angiotensina II não é convertida pela ACE2 é porque esta última está inutilizada pelos vírus, a AGTII aumenta a sua concentração e, por tanto, as suas funções;

Que se resume em:

  • Efeito profinflamatório
  • Mais secreção de aldosterona,

Isto leva a  hipopotasemia, que ao mesmo tem leva a maior permeabilidade vascular aumentando o risco de SDRS ou síndrome de distress respiratório (uma das causas principais da morte neste pacientes).

Pelo contrario, a angiotensina 1-7 (que ficará diminuída) tem um efeito anti-inflamatório e anti-fibrótico ao activar a chamada cascada do receptor.

Más que será beneficioso para a recuperação dos pacientes com COVID-19.

Outros Nexos Metabólicos

Quando o vírus SARS-CoV (atenção, causante da SARS, não do COVID-19) se une ao seu receptor ACE2 nas células do pâncreas que se produzem um dano direto nas ilhotas pancreáticos e uma diminuição da secreção da insulina.

É mais, pacientes que se infectaram de SARS e que não tem antecedentes de diabetes ou tratamento com corticoides (que também pode ocasionar diabetes ou hiperglucemias) foram comparados com os seus irmãos saudáveis durante três anos posteriormente a infeção neste estudo.

paciente covid

Durante a sua hospitalização, mais de 50 % dos pacientes desenvolvem diabetes e só um 5% dos mesmos permaneceram sendo diabéticos aos três anos do seguimento (Yang et al., 2010).

Isto nos faz pensar que, devido que o pâncreas humano expressa a proteína ACE2, o coronavírus pode entrar nas células beta pancreáticas e causar disfunção da célula beta, causando hiperglucemia e uma Diabetes Tipo 2 que a maioria de casos será transitória.

Além disso, e como deixamos ver antes, a própria DMT2, quanto esta presente num primeiro momento, aumenta a expressão da ACE2 em outros tecidos como os pulmões, fígado e coração, o que pode explicar mais risco de infecção e de falho multiorgánico em estes pacientes.

Também explica o por que está sendo tão escéptico ante o uso de inibidores da enzima convertedora de angiotensina (que converte angiotensina I em II), devido que aumenta a expressão de ACE2 nas células humanas.

A mais número de fechaduras, mais possibilidade de entrar nos quartos (células).

hipertensão

Mensagens para Levar para a Casa

Nada na biologia humana escapa ao metabolismo. O metabolismo é ubíquo.

Um metabolismo danificado na base diminui a reserva fisiológica vital e aumenta o risco de padecer múltiplas doenças.

Além disso,no caso da infeção pelo SARS-CoV-2, existem mecanismo específicos pelos que o dano metabólico aumenta o avance do vírus:

  • Aumento da expressão generalizada de ACE2 em tecidos
  • Aumento das ações da angiotensina II no pulmão, favorecendo o chamado SDRS (síndrome de distress respiratório severo)
  • É possível que o SRA-CoV-2 cause danos directos muito plausíveis às células beta pancreáticas
  • Se também acompanhamos os danos metabólicos da Obesidade, multiplicam-se os mecanismos pelos quais a infecção pode ser complicada (pior mecânica ventilatória, aumento da inflamação sistémica, etc.).

Se gostas este post, podemos fazer outro sobre Obesidade e SARS-Cov-2.

Um forte abraço!

Fontes Bibliográficas

  1. Bornstein, S. R., Dalan, R., Hopkins, D., Mingrone, G., & Boehm, B. O. (2020). Endocrine and metabolic link to coronavirus infection. Nature Reviews Endocrinology, 1–2.
  2. Yang, J. K., Lin, S. S., Ji, X. J., & Guo, L. M. (2010). Binding of SARS coronavirus to its receptor damages islets and causes acute diabetes. Acta Diabetologica.

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  • Coronavírus: Uma Versão Crítica neste link
  • Por Que COVID-19 mudará a Medicina? Opinião de um médico aqui.
Avaliação Coronavírus Diabétes e Hipertensão

Doença metabólica - 98%

Tormenta citoquinas - 100%

Efeitos - 100%

Conclusões - 100%

100%

HSN Evaluação: 5 /5
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Sobre Borja Bandera
Borja Bandera
Borja Bandera é um jovem médico dedicado as áreas de nutrição, exercício e metabolismo, que concilia a sua atividade clínica junto a sua vocação divulgativa e investigadora.
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