Exercícios de Alta Intensidade em Tempos de Pandemia. São incompatíveis?

Exercícios de Alta Intensidade em Tempos de Pandemia. São incompatíveis?

No post de hoje vamos analisar e reagir a um artigo de opinião chamado: “Por que motivo não deves fazer desporto intenso em tempos de Covid”. Vamos tratar do tema e dos riscos do exercício de alta intensidade durante a pandemia.

O artigo começa por nos alertar das possíveis sequelas sobre o sistema cardiovascular que o famoso vírus pode deixar.

Afirma-se diretamente que:

“O coronavírus pode deixar danos no miocárdio, inclusamente em assintomáticos, e em quem o tem de forma leve”.

Bom, isto é uma afirmação que pode ter várias nuances, como posteriormente veremos.

Efetivamente, foi comprovado que o vírus em questão, o Sars-Cov-2, tem tropismo cardíaco. Isto significa que pode infetar células cardíacas e replicar-se nelas, ocasionando um potencial dano neste órgão. Ou pelo menos essa é a teoria.

Depois veremos as nuances.

O alerta de que falamos vem da Sociedade Espanhola de Medicina do Desporto (SEMED), cujo presidente, Pedro Manonelles, nos deleitou há umas semanas com um comunicado que rezava assim:

“Se não toleras a máscara no ginásio, então não faças desporto. A segurança está em primeiro lugar”.

Como se não se pudesse (ou devesse) fazer exercício ao ar livre ou na tua própria casa.

Parece que a SEMED defende de forma deficitária o exercício físico como elemento CHAVE (em maiúsculas) para a manutenção das boas condições de saúde da população, assim como na prevenção de doenças. E, para mais, no contexto tão dramático que nos cabe viver na atualidade.

Quem diria…

O artigo continua com alguns fragmentos em que se misturam vários conceitos:

Atleta máscara

“A recomendação é tão clara como difícil de compatibilizar por vezes com os hábitos de milhares de adeptos da prática desportiva com planos de treino exigentes e com o costume de levar o corpo até ao limite, por exemplo, correndo ou nadando longas distâncias quase como se fossem profissionais”.

Com isto quero entender que o autor nos afasta de precisamente “levar o corpo até ao limite”, especialmente se somos desportistas amadores. É uma afirmação com bastante sentido comum. O problema é que o autor do artigo leva à confusão (“por que motivo não deves fazer exercício intenso”).

O que é o exercício de alta intensidade?

Podemos definir o exercício de alta intensidade como aquele que se desempenha acima de 80% da nossa FC máxima, ou então, utilizando uma escala de esforço efetuado de 1 a 10, acima dos 8 pontos.

Outros indicadores de alta intensidade mais comuns são a impossibilidade de falar durante a prática do exercício ou a dificultade de o manter para além de um breve período de tempo.
  • Refere-se simplesmente ao HIFT, ou treino funcional de alta intensidade?
  • Acaso em desportos coletivos não se alcançam picos de intensidade elevados?
  • Afinal, estamos a referir-nos a quê?

Como posteriormente veremos, se esta questão não ficar esclarecida, muita gente irá afastar-se conscientemente de qualquer sensação de “intensidade” durante a prática desportiva, o qual pode ser identificado por muitos como perceber a sua própria frequência cardíaca, por exemplo.

As variantes são importantes.

Exercício de alta intensidade

A intensidade como variável do treino é totalmente subjetiva.

Exemplo: A mesma série de 10 agachamentos com 80 kg pode supor um aquecimento ou um esforço sobre-humano para dois leitores distintos deste post.

Portanto, já temos um problema na definição de “exercício intenso”, se bem que, como se deixou notar, podemos ver por onde vai a coisa e o que pretende dizer o autor (evitar a exaustão física total).

Continuam com afirmações que não refletem de forma fiel a (escassa) evidência científica atual sobre o assunto:

“Provas realizadas com pessoas que sofreram a Covid-19 de forma assintomática ou com sintomas leves mostram que em alguns casos o miocárdio, o músculo cardíaco, sofreu por culpa do temido vírus.”

Esta informação foi retirada de um artigo publicado no blog do “British Journal of Sports Medicine”.

No referido texto (muito esclarecedor) podem concluir-se os seguintes pontos chave:

  • A tempestade de citoquinas que acontece nos pacientes que tiveram COVID-19 de forma sintomática afeta o músculo cardíaco de maneira semelhante a como o faria uma sépsis ou uma cardiomiopatia de stress (Tako-Tsubo).
Isto é aplicável aos pacientes que são muito sintomáticos e que geralmente são os pacientes internados.
  • A COVID-19 pode infetar as células miocárdicas e produzir uma miocardite com uma histologia na qual abundam células inflamatórias (linfócitos), dano muscular agudo e fibrose residual, que em conjunto aumentam a vulnerabilidade das arritmias ventriculares malignas.
  • O dano do miocárdico pela COVID-19 naqueles que são muito sintomáticos tem uma prevalência de 28%, mas o artigo deixa claro que a implicação e prevalência entre os assintomáticos ou levemente sintomáticos é totalmente desconhecida.

Portanto, a afirmação anterior:

“Provas realizadas com pessoas que tiveram a Covid-19 de forma assintomática ou com sintomas leves mostram que em alguns casos o miocárdio, o músculo cardíaco, sofreu por culpa do temido vírus.”

Carece de evidência (atualmente) e não é mais que um apelo ao medo.
  • Também é desconhecida a incidência da inflamação miocárdica (miocardite) silenciosa que fica de forma residual depois da resolução dos sintomas da COVID-19 e que pode afetar negativamente aqueles atletas que tenham sofrido a doença e voltam à sua atividade desportiva habitual.

Posso fazer desporto se tive a doença?

Regra geral, a resposta é afirmativa.

Não obstante, o modus operandi mais responsável vai depender não do facto de se tiveste a doença, mas de que forma a tiveste:

  • Se foste assintomático, ou apenas tiveste sintomas leves, o facto de se controlar o possível aparecimento de sintomas depois de retomada a prática desportiva, juntamente com um gradual e progressivo regresso à atividade deve ser suficiente.
  • Se tiveste a doença de forma mais sintomática ou inclusivamente tiveste necessidade de hospitalização, o mais prudente é que te submetas a um exame cardiológico com as provas que foram já mencionadas no post.
Não obstante, no referido texto fazem-se uma série de recomendações que, na minha modesta opinião, apelam ao sentido comum e estão corretas.

O painel de provas que se recomendam resumem-se ao seguinte:

  • Se és um atleta profissional ou amador, se foste infetado e se és assintomático, tens que estar atento a novos sintomas que possam refletir uma miopericardite relacionada com a COVID, como a dor precordial ou opressão.
Nestes atletas é recomendável fazer um ECG (eletrocardiograma), e se este mostrar alterações na repolarização com respeito a uma avaliação prévia (no caso em que a haja), há que ampliar os testes com uma prova de esforço e um ecocardiograma, pelo menos.
  • Se tiveste a doença de forma sintomática, mas leve (não hospitalizado), teremos que fazer um ECG e continuar a mesma dinâmica referida no ponto anterior (monitorização de sintomas e outras provas se o ECG está alterado).
  • Se estiveste hositalizado por causa da COVID, antes de retomar a prática desportiva é importante fazer uma avaliação cardiológica completa que inclua marcadores de dano no miocárdico (troponinas, NT-proBNP), ECG, prova de esforço, ecocardiograma e inclusivamente um Holter.
Já vos falei em este post por que razão os diabéticos e hipertensos sofrem mais de coronavírus e este outro na perigosa relação entre a obesidade e a COVID-19. Não serão estas doenças os autênticos condicionadores do risco de contrair a infeção mais severamente e nem tanto o exercício físico que tem sido tão castigado como sendo um fator de risco, especialmente no início da pandemia?

O desporto, aliado contra a COVID-19

Depois, fala-se de algo que se está a ouvir muito nestes dias:

“O exercício físico intenso debilita o sistema imunológico durante horas ou dias, enquanto que o exercício físico moderado o fortalece”.

A teoria da “imunossupressão transitória” depois do exercício físico intenso (no chamado período janela) continua a ser isso mesmo, uma teoria.

Essa linfopenia transitória que ocorre nas horas posteriores ao exercício intenso parece responder a uma mobilização de células do sistema imunitário para os tecidos periféricos (tecido muscular).

A Doutora Jessica Bonet acrescenta:

“Fazer exercício de alta intensidade, agora para a população em geral não tem muito sentido, o objetivo da alta intensidade é porque temos uma competição perto”.

Afirmação com a qual não estou nada de acordo: As razões para fazer exercício físico de alta intensidade são muitas, e o facto de se preparar para uma prova ou competição é apenas uma delas.

Treino de força

Treino de força.

  • As pessoas podem fazer exercício de alta intensidade para melhorar a sua saúde (e com suficiente evidência científica que o pode comprovar);
  • Pelo custo-eficácia em termos de consumo de tempo (o exercício físico de alta intensidade, como o HIIT, consome muito menos tempo em geral);
  • Porque assim o requer a sua modalidade desportiva (acaso nos desportos coletivos não se alcançam picos de intensidade elevados?);
  • Ou simplesmente porque seja a única forma de fazer desporto que o motive e gere atração (imagina-se um praticante de crossfit veterano a pôr-se a correr ou fazer elíptica?).

Recomendação dos Entendidos na Matéria

Podemos terminar esta análise recordando ao leitor como é que o exercício físico regular pode afastar-nos de cenários indesejáveis, com pandemia ou sem ela:

  • A capacidade cardio-respiratória (fitness cardio-respiratório) é um fator protetor contra a grande maioria de doenças respiratórias.
  • O exercício é o “multi-comprimido” mais eficiente contra fatores de risco claríssimos e mais que demonstrados: Obesidade, DMT2, Hipertensão arterial ou EPOC.

Recorde-se que mais de metade dos pacientes que necessitam de ventilação mecânica são obesos.
  • E não nos esqueçamos dos benefícios sobre a saúde mental de uma população bastante afetada, e que nesta área é tão pouco mencionada.

Exercício saudável

O exercício é SAÚDE!

Já expliquei em outro post o conceito de reserva fisiológica: um coração e uns pulmões treinados fazem frente a um agente stressante, como pode ser uma infeção respiratória, com muitas mais possibilidades de êxito do que um sistema cardio-respiratório fraco.

Conclusões

A mensagem que o autor quer transmitir é evidente: é do senso comum aconselhar que não se faça excesso de esforços desnecessários nestes tempos nos quais não sabemos realmente qual é a repercussão do vírus em vários orgãos e sistemas.

Não chegues à exaustão, não é o momento de carregar no acelerador.

Nós, os médicos, tentamos colocar em prática o princípio de precaução com os nossos pacientes, e neste aspeto estou de acordo com a mensagem geral que se pretende transmitir: se não estás preparado nem tens uma condição física adequada, evita levar o teu corpo até ao limite.

Ou, dito por outra forma, realiza os esforços que estiveres mais habituado a fazer. Não realizes provas extremas e cuida o volume do teu treino.

O problema (e a crítica principal que tratei de fazer) é que uma mensagem tão genérica (não faças exercício intenso) pode:

  • Gerar medo na população em geral para a prática desportiva, quando esta faz parte da solução e não do problema.
  • Criar mais uma desculpa (como se já tivéssemos poucas) para não fazer exercício físico. Recordemos que 60% da população é sedentária.
Não há nada mais poderoso ou com tanto nível de credibilidade do que um médico a dizer-te que se fazes exercício “intenso” podes ter um fim fatal, porque talvez tenhas tido a infeção de forma assintomática e isto pode afetar o teu coração sem o saberes.

Alta Intensidade

Temos que deixar de ver isto como um problema a curto prazo.

  • Durante quanto tempo vão estar em vigor estas diretivas?
  • Quando estivermos todos vacinados vai eliminar-se o risco?
  • Quanto tempo pode passar até que a grande maioria da população esteja vacinada?
  • Estamos conscientes que estas diretivas só pioram a situação da população, nomeadamente daqueles que são mais vulneráveis aos factores de risco da infeção?
Em suma, tal e como sinto a situação, apelar ao sentido comum inclui continuar com a prática desportiva habitual no desportista regular; fazer as provas médicas pertinentes no caso de necessidade. E afastar-se de esforços aos quais não estamos acostumados, especialmente aquelas pessoas que não estão treinadas ou que não estão na melhor forma física.

Fontes

  1. https://www.lavanguardia.com/vivo/lifestyle/20200912/483222629792/deporte-coronavirus.html

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Avaliação Exercícios de Alta Intensidade na Pandemia

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De que modo afeta a doença "a posteriori" - 100%

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Sobre Borja Bandera
Borja Bandera
Borja Bandera é um jovem médico dedicado as áreas de nutrição, exercício e metabolismo, que concilia a sua atividade clínica junto a sua vocação divulgativa e investigadora.
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