Teacrina, será a Próxima Cafeína?

Teacrina, será a Próxima Cafeína?

Vamos contar tudo sobre a Teacrina, uma substância considerada como uma nova forma de cafeína, embora com algumas diferenças.

A sociedade pede claramente alguma coisa:

Substâncias que aumentam o desempenho psicomotor.

Na procura de complexos moduladores do sistema nervoso central surgiram vários agonistas dopaminérgicos, catecolaminérgicos, colinérgicos… Todos com um mecanismo de ação particular e alguns alvos de ação específicos.

Hoje vamos analisar em profundidade aquilo que é a Teacrina e quais são os seus efeitos, e como se recomenda a sua utilização. Fica aí que vamos contar tudo!

O que é a Teacrina?

A Teacrina (Ácido 1,3,7,9-Tetrametilúrico) é uma molécula homóloga à cafeína, salvo pela adição de uma cetona e um grupo carboxilo ao círculo imidazol.

Cafeina vs teacrina

Figura I. Estrutura molecular do glicerol.

E o que é que isto significa?

Graças à estrutura química, tal como o resto das metilxantinas, possui a capacidade de estimular o sistema nervoso central.

Mas quanto? Como é que conseguimos saber?

Mas certamente, aquilo que vai determinar a atividade da Teacrina vai ser a sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica.

Uma vez que é o principal fator limitador das purinas para alcançar os recetores dos neurónios que nos “mantêm ativos”.

De onde é que é obtida?

Na procura de um alcaloide com efeitos semelhantes, conseguimos encontrar o ácido tetrametilúrico (ou teacrina), uma purina metilada até há uns anos desconhecida, que conseguimos extrair do chá kucha e, claro, aprendemos a sintetizá-la em laboratório.

Camellia

Figura II. Representação gráfica da obtenção de Teacrina a partir do chá kucha (Camellia Assamica var. Kucha). (Li et al., 2015).

Mas porque é que é especial?

Porque graças à sua estrutura química, muito semelhante à molécula da cafeína, verificou-se que é possível ser o futuro substituto desta.

Será que estamos perante a nova cafeína? Continua a ler…

Metilxatinas

São substâncias com uma estrutura de purina (como a cafeína, teobromina ou teofilina) são metilxantinas, substâncias naturais (e legais) com as seguintes propriedades:

  • Efeitos catecolaminérgicos (para estimular a secreção de epinefrina e norepinefrina);
  • Mecanismo direto de vasoconstrição (por agonismo dos recetores α1 e α2);
  • Estimulação cardiorrespiratória (por agonismo β1);
  • Dilatação coronária, broncodilatação (por agonismo β1);
  • Diurese (devido ao aumento da secreção de ácido úrico no túbulo contornado proximal); e
  • Estimulação do sistema nervoso central (por antagonismo recetores A2A, aumento da densidade de D2r e aumento do metabolismo glutâmico).
A capacidade de estimular a atividade do sistema nervoso central é dependente da permeabilidade que tiver a substância ao atravessar a barreira hematoencefálica.

É esta a razão pela qual a cafeína é superior às restantes metilxantinas para estimular o sistema nervoso central, promover a concentração, e a velocidade de reação; a razão deve-se ao facto de possuir uma estrutura mais lipofílica que as restantes metilxantinas, que melhora o transporte e o agonismo da substância (Monteiro et al., 2016).

Tabela

Figura III. Efeitos centrais e periféricos da ação das metilxantinas. (Monteiro et al., 2016).

A Cafeína é, provavelmente, o suplemento mais utilizado para melhorar o desempenho desportivo. Vamos contar-te aqui.

Propriedades da Teacrina

A Teacrina possui a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica mais facilmente.

No seguinte gráfico podemos ver como desde os 15’ até às 2h, as concentrações de Teacrina no plasma e no cérebro correlacionam-se de forma quase perfeita (Li et al., 2015):

Teacrina plasma

Figura IV. Correlação entre as concentrações de Teacrina no plasma (colunas preenchidas) e no cérebro (colunas por preencher); 15 min, 30 min, 1h, e 2h após o seu consumo. (Li et al., 2015).

O que indica que a Teacrina consegue aceder ao nosso cérebro sem qualquer problema; provavelmente devido ao facto de, tal como acontece com a cafeína, ser mais lipofílica do que outras xantinas.

O caráter lipofílico de uma substância é aquilo que lhe fornece uma maior força condutora e, por isso, maior capacidade de chegar ao recetor alvo, ou difundir a camada lipídica dupla; ou seja… Mais potência

Apesar disso, uma substância extremamente lipofílica pode conduzir a uma forte toxicidade; devido à grande capacidade de transporte, ligação e retenção; pode ser uma substância que precise de mais tempo de metabolização e que portanto tenhamos durante mais tempo a atuar no organismo.

É por isso que as substâncias farmacológicas se costumam recomendar as mais hidrófilas (desde que tenham o poder de ação) melhor; porque são simplesmente mais seguras.

A lógica diz-nos que como a Teacrina possui um grupo metilo a mais devia ser mais lipofílica e, logo, mais potente, correto?

Mas não, não sabemos ao certo porquê, mas de facto, é ligeiramente mais “suave” do que a própria cafeína; pode ser devido ao facto de a adição da cetona à molécula ou, provavelmente devido a uma mistura de um coeficiente de distribuição logarrítmica mais baixo, ligado a uma menor biodisponibilidade (He et al., 2017).

O que é que estou a tentar dizer com isto…?

Teacrina com Cafeína, para uma Maior Eficácia

A coadministração de Cafeína juntamente com a Teacrina aumentava significativamente a atividade desta última.

Os dados da tabela apresentada mais abaixo são claros: a Teacrina, sozinha, demora a alcançar a concentração máxima no sangue, é eliminada primeiro do organismo e são necessárias maiores quantidades para alcançar os efeitos.

Metabolismo teacrina

Figura V. Metabolismo da Teacrina após o consumo de 25 mg (condição 1), 125 mg (condição 2), e 125 mg + 150 mg de cafeína (condição 3). (He et al., 2017).

A adição de cafeína à Teacrina diminui o tempo até alcançar a concentração máxima, aumenta a vida média da substância em mais de 10 h, e isto faz com que a área abaixo da curva por unidade de tempo seja 50 % maior.

O que é que estou a dizer?

Que tendo em conta que 150 mg de cafeína alcançam uma concentração máxima de 33.4ng/mL; e que a Teacrina sozinha alcança 34.1ng/mL (praticamente o mesmo), mas é mais hidrófila e por isso menos forte; e 150 mg é uma quantidade com pouca cafeína, enquanto 125 mg é uma quantidade rica em Teacrina…

A Teacrina NÃO é o substituto da cafeína…

A Teacrina pode ser consumida juntamente com a cafeína, ou sozinha.

Questão genética

Além disso nunca é de mais recordar que aquelas pessoas que apresentem um genotipo de CYP1A2 com um ou ambos os alelos C, são considerados “metabolizadores lentos” (um termo incorreto, evidentemente) e mostram um efeito ergogénico menor (no caso de AC) e inexistente ou inclusive negativo (no caso de CC) perante o consumo de cafeína.

Esta associação parece ser dependente de consumidores habituais de xenobióticos metabolizáveis por esta via (fumadores e consumidores habituais de café).

Tabela cafeina

Figura VI. Tempo numa prova de velocidade após o consumo de um placebo (barras preenchidas), e cafeína em quantidades baixas (2mg/kg, barras ponteadas), e em quantidades moderadas (4mg/kg, barras por preencher); segundo o genótipo apresentado de rs762551. Mostra o efeito positivo da cafeína apresentado no genótipo (A; A) e negativo no (C; C). (Guest et al., 2018).

Esta é a razão pela qual, potencialmente, nascemos com a nossa resposta individual pré-definida.

Mas no caso de ter tido la sorte de nascer com o genótipo AA do rs762551, o consumo de Teacrina, por possuir provavelmente uma metabolização por esta isoenzima do citocromo, vai ajudar a potencializar significativamente os efeitos da cafeína, e esta por sua vez, da Teacrina. Complementam-se.

Como é que afeta o desempenho da performance desportiva?

Como praticamente nenhum estudo analisa o genótipo apresentado nos indivíduos que participam, podemos encontrar resultados como estes:

Press banca squat

Figura VII. Alterações a 1RM de press banca e agachamento após o consumo de placebo, 300 mg de Teacrina, 300 mg de cafeína e 150 mg de cada substância; em indivíduos que treinam. (Cesareo et al., 2019).

Nem 300 mg de cafeína, nem 300 mg de Teacrina, nem mesmo a sua combinação (uma quantidade bastante alta), demostraram aumentar absolutamente nada o desempenho dos participantes em provas de força.

Mas depois, a combinação de 125 mg de Teacrina + 150 mg de cafeína era 7 % superior à quantidade equivalente de cafeína e 11 % superior à quantidade equivalente de Teacrina, numa prova de corrida até à exaustão.

Somente a Teacrina (menos de metade da quantidade do estudo do gráfico anterior), aumentou em 27 % o desempenho da performance desportiva dos atletas; estes indivíduos eram na sua maioria, claros “metabolizadores rápidos”.

Teste de esforço

Figura VIII. Alterações no tempo até à exaustão numa prova de esforço de intensidade máxima após o consumo de um placebo, Teacrina, cafeína ou uma combinação. (Bello et al., 2019).

Já perceberam que existem resultados muito estranhos? ¡O que é que está a acontecer?!

Explicação dos resultados dos estudos

A cafeína é uma das ajudas ergogénicas mais fortes (a nível agudo) que existem no mercado, note-se que a WADA (Agência Mundial Anti Doping) anda há anos a tentar eliminar, e atualmente existem concentrações máximas de metabolitos em urina a partir das quais se considera doping.

No entanto, a nossa genética vai determinar a nossa resposta individual ao consumo de metilxantinas, os alelos apresentados em diferentes SNPs (partes do genoma que sabemos que variam entre indivíduos) associados a certos genes vão determinar a metabolização e os efeitos positivos da cafeína (CYP1A2), os efeitos secundários da mesma (ADORA2A), os efeitos dopaminérgicos e ansiedade (DRD2), ou os efeitos sobre a perda de gordura (ADRB2), entre tantos outros conhecidos e por conhecer.

Se te coube a porcelana, nem a Cafeína nem a Teacrina te vão ajudar…; (

A ter em conta…

Com tudo o que foi referido anteriormente, apresentamos um pequeno resumo destes dados:

  • A Teacrina partilha um mecanismo de ação com a cafeína (e provavelmente de metabolização), embora possua uma farmacocinética diferente:
  • Demora mais tempo a alcançar a sua concentração máxima (mais 1 hora).
  • A sua potência relativa é menor, e a concentração alcançada não compensa.
  • A vida média da cafeína dura 6 horas, a da Teacrina entre 16.5h e 26.1h; como apresenta o genótipo (T; T) em rs5751876 e (C; C) em rs762551; com uma quantidade elevada de Teacrina pode haver insónias durante dois dias…
  • A combinação de cafeína e a Teacrina exerce um efeito sinérgico e aumenta a potência estimulante das substâncias.

Potencial da Teacrina

A Teacrina, ao contrário da cafeína, “não gera taquifilaxia”, ou seja, não causa tolerância à utilização.

No entanto, esta conclusão é formulada como base para os relatórios de escalas de relatórios de estado de ânimo, que embora estejam validadas, são muito menos imprecisas (Taylor et al., 2016). Até avaliarmos a resposta fisiológica a um consumo continuado de Teacrina não poderemos concluir isto com uma segurança de 100 %.

É por isso que a Teacrina é uma cafeína “empobrecida”, com capacidade de, através da sua administração conjunta, aumentar os efeitos de ambas.

E embora partilhem mecanismos de ação, pela sua vida média muito longa (especialmente em combinação com a cafeína), a Teacrina mostrou ser útil na inibição das fosfodiesterases nos neurónios dos ratos, e na melhoria do metabolismo cortical da glicose, após a submissão a fatores stressantes.

Melhora o equilíbrio entre a serotonina/dopamina, de modo a permitir que os ratos ficassem “mais calmos”, a melhorar a sua aprendizagem e a sua memória.

Potencial teacrina

Figura IX. Mecanismo de ação que mostra o potencial da Teacrina de modo a atenuar o défice cognitivo após a exposição a estímulos stressantes através do controlo do metabolismo da glicose (maior atividade da GLUT1 e 3; inibição da LDH, aumento da síntese de 5HT e equilíbrio em neurotransmissores inibitórios/excitatórios). (Li et al., 2015).

Conclusões

A potencialidade da Teacrina no futuro vai ser mais a sua ação nootrópica do que o seu próprio perfil estimulante, relevando este último a simples combinação com cafeína.

Deve-se continuar a investigar, uma vez que a farmacocinética desta purina é interessante e provavelmente ainda não foram esclarecidos todos os seus efeitos potenciais.

Individualmente, deve ser utilizada como redutor da excitotoxicidade induzida pela cafeína em momentos de grande stress académico.

Fontes Bibliográficas

  1. Cesareo, K. R., Mason, J. R., Saracino, P. G., Morrissey, M. C., & Ormsbee, M. J. (2019). The effects of a caffeine-like supplement, TeaCrine®, on muscular strength, endurance and power performance in resistance-trained men. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 16(1), 47.
  2. Di, L., & Kerns, E. H. (2016). Chapter 10 – Blood-Brain Barrier. In L. Di & E. H. Kerns (Eds.), Drug-Like Properties (Second Edition) (Second Edition, pp. 141–159).
  3. Guest, N., Corey, P., Vescovi, J., & El-Sohemy, A. (2018). Caffeine, CYP1A2 Genotype, and Endurance Performance in Athletes. Medicine and Science in Sports and Exercise, 50(8), 1570–1578.
  4. He, H., Ma, D., Crone, L. B., Butawan, M., Meibohm, B., Bloomer, R. J., & Yates, C. R. (2017). Assessment of the Drug-Drug Interaction Potential Between Theacrine and Caffeine in Humans. Journal of Caffeine Research, 7(3), 95–102.
  5. Li, Y.-F., Chen, M., Wang, C., Li, X.-X., Ouyang, S.-H., He, C.-C., … He, R.-R. (2015). Theacrine, a purine alkaloid derived from Camellia assamica var. kucha, ameliorates impairments in learning and memory caused by restraint-induced central fatigue. Journal of Functional Foods, 16, 472–483.
  6. Monteiro, J. P., Alves, M. G., Oliveira, P. F., & Silva, B. M. (2016). Structure-Bioactivity Relationships of Methylxanthines: Trying to Make Sense of All the Promises and the Drawbacks. Molecules (Basel, Switzerland), 21(8).
  7. Taylor, L., Mumford, P., Roberts, M., Hayward, S., Mullins, J., Urbina, S., & Wilborn, C. (2016). Safety of TeaCrine(R), a non-habituating, naturally-occurring purine alkaloid over eight weeks of continuous use. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 13, 2.

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Avaliação da Teacrina

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Sobre Alfredo Valdés
Alfredo Valdés
Especialista e treino de fisiopatologia metabólica e nos efeitos biomoleculares da alimentação e o exercício físico, com os seus artigos, vai levar-te no complexo mundo da nutrição desportiva e clínica, de forma simples e desde uma perspectiva crítica.
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