Marcadores bioquímicos do treino

Marcadores bioquímicos do treino

Que marcadores são relevantes para avaliar as mudanças provocadas pelo exercício no organismo?

Por que registar Marcadores Bioquímicos do Treino?

Cada vez é mais comum (e acertado) que os desportistas amadores peçam análises e check-ups antes de iniciar algum tipo de atividade física ou para ver as reações e evolução que essa atividade provocou no corpo, análises de sangue e urina, testes de esforço, testes anaeróbicos, etc.

O meu colega Powerexplosive e eu vamos tentar fazer uma pequena revisão dos mais importantes, para que os utilizadores interessados em realizar este tipo de análises saibam onde procurar ao examinar os resultados.

Efeitos do exercício

Partimos então da base de que cada tipo de exercício provoca mudanças específicas no organismo, que podem ser rastreadas através de certos marcadores bioquímicos que nos permitem controlar o treino de forma mais rigorosa e não treinar às cegas.

Isto não quer dizer que as modificações no organismo devam ser consideradas o único objetivo do treino, mas servem como meio de informação retroativa sobre a eficácia do treino, oferecendo uma avaliação dos efeitos dos exercícios usados na prática desportiva.

Informação Marcadores bioquímicos do treino

Na realidade, o verdadeiro objetivo da monitorização bioquímica é verificar as mudanças induzidas pelo treino, como:

  • Avaliação da carga do treino.
  • Avaliação dos processos de recuperação.
  • Controlo dos efeitos dos diferentes microciclos de treino.
  • Verificação das mudanças adaptativas no organismo, durante os períodos de treino e ao longo de um ano de treino.
  • Diagnóstico do excesso de treino.

Instrumentos para o controlo bioquímico do treino

Os metabolitos e substratos medidos no sangue são o principal meio de controlo bioquímico, embora às vezes esses marcadores sejam medidos na urina ou na saliva.

Na tabela anexa (Bosco, 2000), mostram-se os principais.

MetabolitosOrigemPossível área de controlo do treino
LactatoProduto final da clivagem da glicose ou glicogénio*Determinação do limiar anaeróbico.*Índice de intensidade dos exercícios anaeróbico-glicolíticos ou anaeróbico-aeróbicos.*Índice de utilização da capacidade de trabalho anaeróbico.
AmóniaResultado da degradação das fibras FG em AMP. Possível fonte adicional de oxidação de aminoácidos ramificados.*Índice de ressíntese de ATP através da combinação de dois ATP e formação de AMP.*Índice indireto da atividade das fibras FG.
UreiaProduto final da clivagem das proteínas (aminoácidos).*Índice do efeito de exercícios físicos aeróbicos prolongados.*Índice dos processos de recuperação.
TirosinaDegradação das proteínas, principalmente no tecido muscular.*Índice de intensidade do catabolismo proteico dos músculos.
3-MetilistidinaProduto da degradação das proteínas miofibrilares (miosina, actina).*Índice do turnover das proteínas contráteis.*Verificação do efeito do treino em sessões de treino de força e potência.
AlaninaProduto da combinação dos grupos NH3 (liberados na oxidação de aminoácidos de cadeia ramificada e piruvato nos músculos).*Avaliação da percentagem de glicose-alanina que faz a ligação entre o metabolismo das proteínas e dos hidratos de carbono na produção de energia da atividade muscular.
LeucinaAminoácido de cadeia ramificada oxidável nos músculos.*Índice do metabolismo dos aminoácidos de cadeia ramificada.
TriptofanoPrecursor da síntese do neurotransmissor serotonina.*Diagnóstico da fadiga central e de um mecanismo central relacionado com o excesso de treino.
GlutaminaAminoácido essencial tanto para o funcionamento ótimo de vários tecidos como para a atividade imunitária normal.*Diagnóstico da fadiga e do excesso de treino, usado principalmente para identificar possíveis informações sobre as mudanças na atividade imunitária.
Ácidos gordos livresProduto da lipólise (clivagem dos triglicéridos do tecido adiposo). Usado nos músculos como substrato para oxidação.*Determinação do valor da utilização dos lípidos como substrato oxidativo (a concentração sanguínea de ácidos gordos livres é proporcional ao seu uso na oxidação).
GlicerolProduto da lipólise. Usado no fígado na gluconeogénese.*Avaliação da intensidade da lipólise no tecido adiposo.
GlicoseConstituinte normal do sangue. Fornecida pelo fígado.*Índice da utilização dos hidratos de carbono.*Fator de controlo metabólico.
O valor das informações úteis aumenta se se adicionar o cálculo das hormonas presentes no sangue

Lactato como marcador do treino

Relaciona-se basicamente com a avaliação do exercício anaeróbico e a constatação dos limiares (anaeróbico e aeróbico), quando não se dispõe de equipamento para análise de gases.

No controlo bioquímico do treino, o lactato é o metabolito cuja utilização está mais difundida

Objetivo

O objetivo do cálculo da presença de ácido láctico, sendo este o produto final da glicólise anaeróbica, é definir a contribuição desta na produção de energia durante o exercício, definindo a evolução do metabolismo energético e oferecendo uma estimativa semiquantitativa na tentativa de estabelecer a contribuição da produção de energia anaeróbica.

Glucolisis

A causa disto está relacionada com as condições que conduzem à formação do lactato e ao seu destino

O lactato forma-se durante a glicólise a partir do piruvato, quando este não dispõe de oxigénio suficiente para se oxidar, de modo que certa parte do piruvato se oxida enquanto outra parte se transforma precisamente em lactato

Intensidade do exercício e formação de Lactato

Intensidade baixa

Com intensidades baixas de exercício, o piruvato formado durante a glicólise é facilmente oxidado, havendo pouca ou nenhuma formação de lactato.

Limiar aeróbico

Quando a intensidade do exercício ultrapassa o limiar aeróbico, aumenta a formação de lactato, mas os sistemas tampão do bicarbonato e outros amortecedores mantêm-no controlado.

Limiar anaeróbico

No entanto, quando a intensidade do exercício aumenta para além do limiar anaeróbico, o desequilíbrio entre o piruvato formado e o piruvato oxidado faz disparar a formação de lactato.

Além disso, os sistemas de amortecimento ficam sobrecarregados, pelo que se a intensidade se mantiver perde-se a capacidade para continuar o exercício

Reciclagem do Lactato

Mas, em exercícios anaeróbicos, não podemos dar dados 100% precisos da energia produzida pela glicólise anaeróbica medindo o lactato acumulado, pois não se descarta que fibras musculares com maior capacidade oxidativa (ST ou FTa) oxidem uma pequena quantidade de lactato no próprio músculo.

Na realidade, “o nível sanguíneo de lactato expressa a relação entre o lactato que vai dos músculos para o fluxo sanguíneo e a quantidade de ácido láctico que volta do sangue para o local da sua utilização metabólica no processo de oxidação” (Bosco, 2000).

Principalmente, nas fibras ST de músculos em repouso ou moderadamente ativados, ou no miocárdio, ou na gluconeogénese (no fígado).

lactato

Em exercícios de maior intensidade, o aparecimento de lactato supera a sua eliminação de forma curvilínea (Calderón, 2012)

Em consequência, o lactato sanguíneo pode ser usado para definir a produção de energia anaeróbica no trabalho muscular, embora se deva ter alguma cautela ao tirar conclusões quantitativas

Fontes

  1. BOSCO, Carmelo. (2000). A força muscular: aspetos metodológicos. Ed. INDE
  2. CALDERÓN, Javier. (2012). Fisiologia humana: aplicação à atividade física. Ed. Médica Panamericana.
  3. NORTEY-CRUZ, Carmen, DÍAZ-BACALLAO, Niurka. Comportamento de marcadores bioquímicos do exercício no voleibol feminino durante um macrociclo de treino. Rev. Cub. Med. Dep. & Cul. Fís. 2011; Vol 5, Num 3.

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Sobre Alfredo Valdés
Alfredo Valdés
É especialista em treino de fisiopatologia metabólica e nos efeitos biomoleculares da alimentação e do exercício físico.
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