Os suplementos podem prevenir a degeneração cognitiva?

Os suplementos podem prevenir a degeneração cognitiva?

Se ultimamente tens um pouco mais de dificuldade em lembrar-te de onde deixaste as chaves, ou notas que te distrais com mais facilidade do que há alguns anos, talvez já te tenhas perguntado o que podes fazer para cuidar da tua saúde cognitiva a longo prazo.

Neste artigo, analisamos alguns nutrientes e ingredientes de interesse no âmbito da função cognitiva e explicamos que aspetos deves ter em conta na hora de escolher um suplemento.

O que entendemos por saúde cognitiva?

A memória, a atenção, a capacidade de concentração e outras funções cognitivas fazem parte do nosso funcionamento diário.

Estas funções dependem de inúmeros fatores, entre os quais a idade, a alimentação, a atividade física, o descanso, o ambiente e o estado nutricional.

Por isso, quando falamos de saúde cognitiva, não existe um único fator responsável nem uma solução universal. A abordagem mais razoável passa por manter hábitos saudáveis e garantir uma alimentação adequada que forneça os nutrientes necessários ao normal funcionamento do organismo.

O que é o declínio cognitivo e porque ocorre?

O declínio cognitivo associado à idade é um processo natural e progressivo no qual estas funções — como a memória, a atenção ou a velocidade de processamento — podem ir perdendo eficiência.

Por detrás deste processo existem vários mecanismos biológicos bem documentados: o stress oxidativo (a acumulação de danos celulares causados por radicais livres), a neuroinflamação de baixo grau e a perda de plasticidade sináptica, ou seja, a capacidade dos neurónios para comunicarem eficazmente entre si e formarem novas conexões.

É importante deixar isto claro desde o início: os suplementos não curam nem tratam doenças neurodegenerativas como o Alzheimer ou o Parkinson.

Nenhum produto de venda livre tem essa capacidade e qualquer mensagem que o sugira deve deixar-te de pé atrás. O que alguns nutrientes e extratos podem fazer é atuar sobre esses fatores modificáveis que acabámos de mencionar, apoiando a manutenção celular normal e fornecendo os “materiais de construção” de que o cérebro necessita para funcionar de forma ideal. A verdadeira prevenção começa no estilo de vida e a suplementação, quando faz sentido, desempenha um papel complementar.

A suplementação pode fazer sentido em determinados contextos, especialmente quando ajuda a satisfazer as necessidades nutricionais, mas não deve ser encarada como um substituto de uma alimentação equilibrada nem do acompanhamento de um profissional de saúde quando este for necessário.

Ingredientes de interesse para a função cognitiva

Nem todos os ingredientes presentes num suplemento “para o cérebro” têm o mesmo respaldo científico. Estes são os que apresentam mecanismos de ação mais bem descritos na literatura:

Ácidos gordos Ómega-3: DHA e função cerebral

O DHA (ácido docosahexaenoico) é, em termos simples, um dos “blocos de construção” estruturais mais importantes do cérebro: representa uma percentagem muito significativa dos ácidos gordos que constituem as membranas dos neurónios. Uma membrana com uma boa proporção de DHA é mais fluida, o que facilita a comunicação entre os neurónios e o bom funcionamento dos recetores presentes na sua superfície.

  • O DHA contribui para a manutenção de uma função cerebral normal (o efeito benéfico é obtido com uma ingestão diária de 250 mg de ácido docosahexaenoico).

O EPA (ácido eicosapentaenoico), por sua vez, está mais associado à modulação da resposta inflamatória. Em conjunto, o DHA e o EPA contribuem para o normal funcionamento do cérebro e ajudam a manter sob controlo a neuroinflamação de baixo grau que referimos anteriormente.

Citicolina e fosfatidilserina: precursores de neurotransmissores

A citicolina é uma fonte de colina, um nutriente essencial para sintetizar acetilcolina, o neurotransmissor mais diretamente envolvido nos processos de memória e atenção. Dito de forma simples: sem colina disponível, o cérebro tem menos “matéria-prima” para produzir este mensageiro químico tão importante.

A fosfatidilserina, por sua vez, é um fosfolípido que faz parte da estrutura das membranas neuronais. A sua presença adequada está relacionada com a manutenção da função cognitiva normal, especialmente no que diz respeito à memória a curto prazo, um aspeto que tende a ser afetado com a idade.

Extratos botânicos: Bacopa monnieri e juba de leão

A Bacopa Monnieri é uma planta utilizada há séculos na medicina tradicional ayurvédica. O interesse científico atual centra-se nos seus compostos ativos, os bacósidos, que têm sido estudados pelo seu possível papel na melhoria do processamento da informação e da retenção visual.

A Juba de Leão (Hericium erinaceus) é um cogumelo funcional que ganhou muita popularidade nos últimos anos. É investigado pela sua potencial capacidade para estimular a produção do Fator de Crescimento Nervoso (NGF), uma proteína envolvida no crescimento e na manutenção dos neurónios.

Complexo de vitaminas B (B6, B9 e B12): regulação da homocisteína

Este é um dos mecanismos com maior consenso científico. Existe uma relação bem documentada entre níveis elevados de homocisteína no sangue e um maior risco de atrofia cerebral em adultos mais velhos. As vitaminas B6, B9 (folato) e B12 são cofatores essenciais no metabolismo da homocisteína, ajudando a mantê-la em níveis saudáveis.

Suplementos para a capacidade mental

O que procurar ao escolher um suplemento para a saúde cognitiva?

O mercado de suplementos relacionados com a função cognitiva oferece inúmeras formulações. Para as comparares, há vários aspetos que vale a pena analisar.

Padronização dos extratos botânicos

Uma planta em pó não é o mesmo que um extrato padronizado. A padronização permite conhecer a quantidade declarada de determinados compostos característicos do extrato e facilita a comparação entre diferentes formulações.

Isto fornece informações úteis sobre a composição do produto e facilita a correta interpretação da rotulagem.

  • Por exemplo, num extrato de Bacopa monnieri pode ser indicada a quantidade ou percentagem de bacósidos utilizada como referência para a sua padronização.

Forma química e características do ingrediente

Os ingredientes podem apresentar-se sob diferentes formas químicas. Ao comparares suplementos, convém verificar que forma é utilizada pelo produto, que quantidade fornece por dose e que informações são disponibilizadas pelo fabricante.

  • Em vez de assumires que uma determinada forma é sempre “superior”, é preferível avaliar cada ingrediente de acordo com as suas características, a formulação específica e a informação científica disponível.

Transparência na rotulagem e doses clinicamente eficazes

Um bom suplemento não esconde as suas quantidades por detrás de um “complexo patenteado” sem as discriminar. Procura produtos em que a dose por toma diária de cada ingrediente esteja claramente indicada e compara-a com as doses utilizadas nos ensaios clínicos de referência para esse ingrediente.

  • Uma quantidade meramente simbólica de um ingrediente ativo da moda, abaixo da dose eficaz, não te vai trazer grande coisa para além do marketing.

Certificações de qualidade e ausência de contaminantes

Especialmente em ingredientes como o Ómega-3, proveniente de fontes marinhas, a pureza é um fator crítico. Certificações independentes como a IFOS™ certificam a ausência de metais pesados e de outros contaminantes.

  • Ao nível do fabrico, certificações como GMP ou HACCP são indicadores de que o produto foi produzido sob rigorosos controlos de qualidade, e muitas marcas já submetem os seus ingredientes a análises em laboratórios independentes.

Hábitos que acompanham os cuidados com a saúde cognitiva

A alimentação, a atividade física, um descanso adequado e manter uma vida mentalmente ativa fazem parte dos hábitos que podem contribuir para os cuidados com a saúde e o bem-estar geral.

  • Atividade física: Para além dos seus benefícios gerais para a saúde, manteres-te fisicamente ativo ajuda a conservar uma boa condição física e funcional ao longo do tempo.
  • Descanso: Dormir adequadamente também faz parte de uma rotina saudável. Estabelecer horários regulares, manter boas condições ambientais e dar prioridade a um descanso suficiente pode contribuir para o bem-estar geral.
  • Alimentação equilibrada: Uma alimentação variada permite obter proteínas, gorduras, hidratos de carbono, vitaminas, minerais e outros compostos necessários ao normal funcionamento do organismo.
  • Manter a mente ativa: Aprender coisas novas, ler, adquirir competências, manter relações sociais e enfrentar novos desafios são formas de manter uma vida mentalmente ativa.

      A saúde cognitiva é multifatorial e, por isso, faz mais sentido falar de hábitos globais do que procurar um único ingrediente responsável por todos os seus aspetos.

      Perguntas frequentes

      • Quando faz sentido prestar atenção à saúde cognitiva?

        Cuidar dos hábitos relacionados com a alimentação, o exercício, o descanso e o bem-estar pode fazer parte de um estilo de vida saudável em qualquer idade.

        Não existe uma idade específica a partir da qual seja necessário começar a tomar um suplemento. A necessidade de suplementação dependerá da alimentação, das circunstâncias individuais e das necessidades nutricionais de cada pessoa.

      • Os suplementos produzem efeitos imediatos?

        Nem todos os suplementos têm o mesmo objetivo nem funcionam da mesma forma.

        A resposta dependerá do ingrediente, da quantidade fornecida, do estado nutricional inicial e das circunstâncias individuais. Por isso, é preferível não generalizar um prazo específico para todos os suplementos relacionados com a função cognitiva.

      • Os suplementos podem interagir com medicamentos?

        Sim. Alguns suplementos alimentares podem apresentar interações com determinados medicamentos.

        Se estiveres a seguir um tratamento farmacológico, especialmente se for crónico, estiveres grávida ou tiveres alguma condição médica, consulta o teu médico ou farmacêutico antes de incorporares um suplemento na tua rotina.

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      Sobre Alfredo Valdés
      Alfredo Valdés
      É especialista em treino de fisiopatologia metabólica e nos efeitos biomoleculares da alimentação e do exercício físico.
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