As sapatilhas de halterofilismo e os sapatos de salto alto partilham a característica de elevar o calcanhar acima da horizontal; seja para melhorar movimentos como o agachamento, ou para parecer mais esbelta, respetivamente.
O músculo esquelético é um tecido altamente maleável que pode adaptar-se tanto morfológica como funcionalmente a alterações crónicas na carga mecânica. Estes dois tipos de calçado partilham a condição comum de colocar as unidades músculo-tendinosas numa posição encurtada em relação à anatómica. Noutras palavras, obriga-se a articulação do tornozelo a permanecer numa flexão plantar temporariamente.
As alterações na plasticidade devido às mudanças nas exigências funcionais manifestam-se não só pelas modificações de comprimento e penetração (ângulo de disposição das fibras) dos músculos esqueléticos, mas também pelos tendões. Estes tecidos moles são mecanicamente sensíveis e também podem ajustar o seu tamanho e propriedades elásticas para manter constante uma tensão quando as forças que atuam sobre eles aumentam ou diminuem.
Em consequência, o tendão de Aquiles responderá de forma destacada a qualquer alteração no comportamento contrátil dos músculos flexores plantares induzida pelo uso habitual a longo prazo de saltos altos (considera-se como tal o uso de salto de 3-5 cm pelo menos 4 vezes por semana durante dois anos). Um número crescente de evidências mostra que o uso deste tipo de calçado está associado a um aumento das forças de reação do solo, especialmente no caso dos sapatos de salto agulha (menor superfície de contacto para suportar o mesmo peso corporal total), o que indica maior atividade muscular e forças axiais sobre o tendão de Aquiles. Isto desencadearia mudanças como:
- Hipertrofia do tendão
- Redução do comprimento dos sarcómeros do músculo gastrocnémio, forçando este músculo a atuar numa região desfavorável da sua curva comprimento-tensão
- Aumento da rigidez do complexo tendão-aponeurose
- Ângulos maiores de flexão plantar do tornozelo em repouso.
O que resultaria, por sua vez, em alterações nas propriedades mecânicas do tendão de Aquiles modificando a sua funcionalidade, que é o que realmente interessa. Entre elas, destacamos a tendência para a inversão do pé (rotação interna, supinação) e uma menor capacidade de realizar dorsiflexão em intervalos ótimos, o que, por cadeias musculares, pode derivar em alterações estruturais noutras zonas anatómicas.

De facto, ao andar de salto, o centro de massa corporal é elevado e deslocado para a frente, o que obriga os flexores plantares a gerar pares de força de descolagem do solo mais altos durante a locomoção, possivelmente para contrariar os efeitos desestabilizadores causados pela força de reação do solo.

Resumo
Em conclusão, usar sapato de salto ou sapatilha de halterofilismo como norma habitual reduz o intervalo ativo de movimento do tornozelo devido às adaptações músculo-tendinosas e aponeuróticas resultantes das mudanças na exigência funcional.
Por isso, para o treino recomenda-se trabalhar a dorsiflexão mesmo que se use sapatilha de halterofilismo para melhorar em alguns exercícios. O uso de sapato de salto nas mulheres, por outro lado, é muito apelativo visualmente, mas isso não justifica, do ponto de vista da anatomia estrutural, o seu uso diário.
Fontes
- Cronin, N. J., Barrett, R. S., & Carty, C. P. (2012). Long-term use of high-heeled shoes alters the neuromechanics of human walking. Journal of Applied Physiology, 112(6), 1054-1058.
- Csapo, R., Maganaris, C. N., Seynnes, O. R., & Narici, M. V. (2010). On muscle, tendon and high heels. The Journal of experimental biology, 213(15), 2582-2588.

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