O que é o Elixir com Hidratos de Carbono ou Mouth Rinse?

O que é o Elixir com Hidratos de Carbono ou Mouth Rinse?

Em vez de beberes a bebida rica em hidratos de carbono, bochechas a boca com ela e cospes. Está cientificamente comprovado que pode melhorar o teu desempenho desportivo.

Como se faz o mouth rinse?

  1. Adiciona 50 g de dextrose a meio litro de água.
  2. Bochecha a boca durante 5-10 segundos com um gole da solução e cospe-a.
  3. Repete a cada 5-10 minutos.
  4. Podes manter o protocolo durante 60-75 minutos de exercício.

O que deves ter em conta:

  • É mais eficaz se treinares em jejum ou com baixa disponibilidade energética.
  • Destina-se a esforços de alta intensidade, intervalados, com uma duração entre 30 e 75 minutos.
  • Se o teu treino ultrapassar os 90 minutos, precisas de ingerir a bebida de hidratos de carbono: o elixir já não é suficiente.

O que podes esperar:

Uma melhoria média de 2-3% no desempenho, com um intervalo que, nos estudos, varia entre 0% e 12%, consoante o contexto. É um protocolo apoiado por Jeukendrup (2014) e pelo ACSM (2016) para treinos curtos e intensos.

Para que desportos funciona melhor?

O mouth rinse não é uma estratégia universal. É especialmente eficaz em:

  • Ciclismo e running em provas de alta intensidade com uma duração próxima de uma hora.
  • Protocolos de treino “train low, compete high”.
  • Sessões em jejum ou com reservas de glicogénio baixas.
Resumo rápido: o mouth rinse consiste em bochechar a boca com uma solução de hidratos de carbono e cuspi-la, sem a engolir. Ativa recetores do sabor doce que “avisam” o cérebro e atrasam a sensação de fadiga. Funciona sobretudo em esforços de 30 a 75 minutos de alta intensidade, especialmente se treinares em jejum.

Ciclistas e elixir de hidratos de carbono

Como consegue o cérebro “não sentir” a fadiga?

O mecanismo exato continua a ser complexo, mas existe uma pista clara: a ativação dos “recetores do sabor doce” (T1R2 e T1R3) da tua boca envia sinais para determinadas áreas do cérebro, aumenta o fluxo de sangue rico em oxigénio e ajuda a manter o equilíbrio dos neurotransmissores.

Recetores bucais

A hipótese mais aceite aponta para o chamado “centro de governo” proposto por Hill: o mouth rinse bloquearia a atividade cerebral que limita o recrutamento de unidades motoras.

Dito de forma simples: “enganamos” determinadas regiões do cérebro para que não percecionem a situação como fatigante e não nos limitem muscularmente antes do tempo.

O que diz a evidência científica?

Parece quase um truque de magia, mas a evidência apoia-o: esta técnica aumenta o desempenho em esforços curtos e intensos de forma comparável à ingestão da solução, com a vantagem adicional de não ser necessário ingerir nada durante a prova.

Tanto assim é que, atualmente, é o modelo de referência proposto por Jeukendrup (2014) para desportos com uma duração de 30 a 75 minutos. Os mecanismos que explicam este efeito continuam a ser, em grande parte, hipotéticos: conhecemos a origem, mas não todos os detalhes.

A Sociedade Internacional de Nutrição Desportiva (2018) classifica os hidratos de carbono como suplemento de categoria de evidência “1”: elevada eficácia e perfil de segurança favorável para melhorar o desempenho desportivo.

Nos estudos revistos por de Ataide et al. (2019), o elixir bucal com hidratos de carbono melhorou o desempenho em provas de alta intensidade, em média, 2,8%.

O Colégio Americano de Medicina Desportiva (ACSM), no seu position stand de 2016, reconhece o mouth rinse como uma estratégia interessante para esforços de 45-75 minutos.

Porque é que os hidratos de carbono continuam a ser fundamentais para o desempenho?

Sabemos há décadas que ingerir hidratos de carbono durante esforços aeróbicos prolongados (cerca de 2 horas) melhora o desempenho de forma consistente, independentemente do desporto, da duração ou da intensidade.

“Para o desempenho de alta intensidade, os hidratos de carbono continuam a ser os reis”, resume Kanter (2018).

Um dos estudos de referência é o de Jeukendrup (1997), o investigador que mais estudou esta área:

Verificou que uma bebida de hidratos de carbono e eletrólitos melhorava o desempenho em 2,3% em provas curtas e intensas (com aproximadamente uma hora de duração), reduzindo o tempo necessário para completar o objetivo e aumentando a potência máxima alcançada.

O motivo? Algo tão simples como a disponibilidade energética.

Graças a fontes de hidratos de carbono altamente ramificadas, com ligações glicosídicas fracas e elevado peso molecular — como a amilopectina, maltodextrina, HBCD ou dextrose —, o organismo absorve os monossacáridos de forma eficiente mesmo durante o exercício, quando a circulação intestinal diminui drasticamente.

Perguntas frequentes sobre o mouth rinse

  • O mouth rinse substitui uma bebida desportiva?

    Nem sempre. Se o teu treino ultrapassar os 90 minutos, precisas de ingerir hidratos de carbono: o elixir deixa de ser suficiente a partir desse momento.

  • Qualquer bebida açucarada serve?

    É preferível utilizar as fontes mais estudadas para este protocolo: dextrose e maltodextrina.

  • Para quem é menos eficaz?

    Se já segues uma alimentação rica em hidratos de carbono, é possível que notes menos diferença com este protocolo. Também não faz sentido combiná-lo com uma bebida intra-treino que já contenha hidratos de carbono.

  • Funciona da mesma forma nos treinos de força?

    Não. Nos treinos de força, o mouth rinse não demonstrou melhorar o 1RM nem o número de repetições (Dunkin, 2017; Clarke, 2015; Painelli, 2011).

  • Quanto tempo dura o efeito?

    O benefício foi documentado principalmente durante o próprio esforço, no período de 30-75 minutos em que o protocolo é aplicado, e não como um efeito acumulativo posterior.

Fontes Bibliográficas

  1. Ataide-Silva, T., Ghiarone, T., Bertuzzi, R., Stathis, C. G., Leandro, C. G., & Lima-Silva, A. E. (2016). CHO Mouth Rinse Ameliorates Neuromuscular Response with Lower Endogenous CHO Stores. Medicine and Science in Sports and Exercise, 48(9), 1810–1820.
  2. Chandrashekar, J., Hoon, M. A., Ryba, N. J. P., & Zuker, C. S. (2006). The receptors and cells for mammalian taste. Nature, 444(7117), 288–294.
    de Ataide e Silva, T., Di Cavalcanti Alves de Souza, M. E., de Amorim, J. F., Stathis, C. G., Leandro, C. G., & Lima-Silva, A. E. (2013). Can carbohydrate mouth rinse improve performance during exercise? A systematic review. Nutrients, 6(1), 1–10.
  3. Jeukendrup, A. (2014). A step towards personalized sports nutrition: carbohydrate intake during exercise. Sports Medicine (Auckland, N.Z.), 44 Suppl 1(Suppl 1), S25-33.
  4. Jeukendrup, A., Brouns, F., Wagenmakers, A. J., & Saris, W. H. (1997). Carbohydrate-electrolyte feedings improve 1 h time trial cycling performance. International Journal of Sports Medicine, 18(2), 125–129.
  5. Kanter, M. (2018). High-Quality Carbohydrates and Physical Performance: Expert Panel Report. Nutrition Today, 53(1), 35–39.
  6. Kerksick, C. M., Wilborn, C. D., Roberts, M. D., Smith-Ryan, A., Kleiner, S. M., Jäger, R., … Kreider, R. B. (2018). ISSN exercise & sports nutrition review update: research & recommendations. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 15(1), 38.
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  8. Ren, X., Zhou, L., Terwilliger, R., Newton, S. S., & de Araujo, I. E. (2009). Sweet taste signaling functions as a hypothalamic glucose sensor. Frontiers in Integrative Neuroscience, 3, 12.
  9. Thomas, D. T., Erdman, K. A., & Burke, L. M. (2016). American College of Sports Medicine Joint Position Statement. Nutrition and Athletic Performance. Medicine and Science in Sports and Exercise, 48(3), 543–568.
  10. Vitale, K., & Getzin, A. (2019). Nutrition and Supplement Update for the Endurance Athlete: Review and Recommendations. Nutrients, 11(6).

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