Neste artigo vamos falar dos 10 erros mais comuns ao treinar força
1. Não organizar os aquecimentos de forma adequada
Weineck (2005) entendia o “Aquecimento” como todas as medidas que, antes de uma carga desportiva, seja durante o treino ou a competição, servem para criar um estado de preparação ótimo em termos psicofísicos e coordenativo-cinestésicos.
Isto quer dizer que as fases preparatórias antes do treino principal devem estar modeladas através de uma abordagem multi-integradora de conteúdos, meios, métodos e objetivos do treino.
Concretamente, o aumento na capacidade de rendimento através do aquecimento está determinado pelas alterações no SNC e muscular (Siff & Verkhoshansky, 2011). Para isso, a especificidade do aquecimento, tal como a do treino, é importante (Siff & Verkhoshansky, 2011).
Os objetivos do Aquecimento Geral (AG) são (Weineck, 2005; Siff & Verkhoshansky, 2011):
- Aumentar o potencial funcional do corpo.
- Refrescar os automatismos motores de origem reflexa.
- Obter amplitudes de movimento (ROM) ótimas.
- Alcançar uma ativação/inibição neuro-muscular.

Figura 1. Conteúdos do Aquecimento Geral antes da sessão de Força (Kalichman & Ben, 2017; Su, Chang, Wu, Guo & Chu, 2017; Sainz de Baranda & Cejudo, 2016). SMFR: Self Miofascial Release, JbJ: Joint by Joint.
Objetivo do aquecimento
As finalidades do Aquecimento Específico (AE) são (Weineck, 2005; Siff & Verkhoshansky, 2011):
- Conseguir uma habituação ótima dos reflexos à sequência motora técnica de uma disciplina desportiva.
- Estabelecer uma relação ótima entre o exercício próximo e as atividades do sistema nervoso central relacionadas com esse movimento.
- Buscar uma estrutura dinâmica e cinemática do exercício de aquecimento semelhante à do exercício final.
- Redistribuir o sangue que o AG mobilizava anteriormente desde as zonas de acumulação.
- Preparar o organismo do ponto de vista coordenativo e metabólico.
- Aproximar a carga e o rendimento de forma progressiva e sucessiva “Ativação, Fim da Carga e Carga Plena”.

Figura 2. Conteúdos do Aquecimento Específico antes da sessão de Força (McCrary, Ackermann & Halaki, 2015; McGowan, Pyne, Thompson & Rattray, 2015; Seitz & Haff, 2016). PAP: Potenciação Pós-Ativação.
2. Menos “Rotinas” e mais Programas de Treino
A problemática das “Rotinas” surge em torno de vários condicionantes (Heredia, Isidro, Peña, Mata & Da Silva-Grigoletto, 2012):
- a massificação,
- limitação temporal para poder atuar sobre estruturas a médio-longo prazo de planeamento, limitação na capacidade de avaliação,
- controlo do treino,
- feedback e reajuste,
- escassa disponibilidade de meios para avaliação e controlo do treino, e
- a existência de certa “controvérsia” ou dificuldade para unificar critérios básicos relativamente aos processos relacionados com o desenho de programas de treino nesta área.
Desenho do processo de treino
Devido a isso, Heredia et al., (2012) propõem a diferenciação de 4 fases progressivas no desenho do processo de treino (Figura 3):

Figura 3. Fases progressivas no desenho do processo de treino (Heredia et al., 2012).
3. Não controlar a intensidade dos exercícios
É vital conhecer com exatidão as cargas de treino que prescrevemos para poder conhecer a intensidade de trabalho e assim avaliar a eficácia dos programas de treino.
Para isso, contamos com uma série de ferramentas válidas, fiáveis e baratas que nos permitirão controlar e monitorizar a intensidade dos exercícios que vamos desenvolver durante a sessão de força.
Por um lado, My Jump© (figura 4) é uma aplicação válida e fiável para calcular o salto vertical (CMJ, DJ e SJ) através do tempo de voo (Balsalobre-Fernández, Glaister e Lockey, 2015; Gallardo-Fuentes et al., 2016; Carlos-Vivas, Martín-Martínez, Hernández-Mocholi e Pérez-Gómez, 2018; Haynes, Bishop, Antrobus e Brazier, 2018; Yingling, Castro, Duong, Malpartida e Usher, 2018; Edward, R. et al., 2018).

Figura 4. Aplicação My Jump©
Por outro lado, Powerlift app© (figura 5) é um instrumento altamente válido, fiável e preciso para medir a velocidade média e estimar o 1RM no Press Banca (Balsalobre-Fernández, Marchante, Muñoz-López e Jiménez, 2018).

Figura 5. Aplicação Powerlift app©
Escala RPE
Finalmente, a Escala RPE baseada em RIR (Repetições na Câmara) apresentou uma relação (significativa) inversa entre a velocidade média e todos os percentuais do 1RM (Zourdos et al., 2016).
| RPE | Perceção de esforço em RIR |
| 10 | Esforço máximo |
| 9,5 | Sem repetições na câmara, mas não máximo |
| 9 | RIR 1 |
| 8,5 | RIR 1-2 |
| 8 | RIR 2 |
| 7 | RIR 3 |
| 5-6 | RIR 4-6 |
| 3-4 | Esforço suave |
| 1-2 | Quase sem esforço |
Escala RPE baseada em RIR (Zourdos et al., 2016)
4. Não treinar os glúteos com base na sua Curva SRA
O SRA muscular (Stimulus, Recovery and Adaptation) é o princípio primário que dita com que frequência se devem treinar os glúteos para crescer tão rápido quanto humanamente possível (Contreras, 2016).
A Síntese de Proteína Muscular (MPS) aumenta durante a recuperação e adaptação, e como se observa na figura 6, durante o curso da curva SRA o MPS está constantemente elevado (Contreras, 2016).

Figura 6. Relação curva SRA e o processo MPS (Contreras, 2016)
Concretamente, o tipo de exercício para glúteo influencia o tempo que leva a completar o processo de SRA e dita com que frequência (Figura 7) se devem treinar e como (Figura 7) se devem desenhar os programas de treino (Contreras, 2016).

Figura 7. Relação curva SRA e o tipo de exercício (Contreras, 2016)
5. Usar o Cinto Lombar de forma incorreta
O Cinto Lombar é uma ferramenta sensório-motora que aumenta a pressão intra-abdominal (PIA) (Cholewicki, Juluru, Radebold, Panjabi & McGill, 1999).
Este elemento por si só não melhora o rendimento, é um elemento proprioceptivo que permite ter consciência da faixa abdominal, para contrair esta de forma mais eficaz e melhorar a transmissão de forças ao longo de toda a cadeia cinética (DePalo, Parker, Al-Bilbeisi & McCool, 2004; Cholewicki et al., 1999).
6. Estruturação incorreta do treino do CORE
A musculatura lumbo-abdominal (CORE) tem como objetivo participar na estabilização raquidiana (Heredia et al., 2010).
Os músculos lombares e abdominais podem ser classificados com base na sua função estabilizadora como (Heredia, Isidro, Peña, Chulvi & Mata, 2010): Sistema Estabilizador Local (Intertransverso, Interespinal, Multífido, Longíssimo do Tórax, Ilíaco-costal Lombar, Quadrado Lombar, Transverso Abdominal e Oblíquo Interno) e Sistema Estabilizador Global (Longíssimo do Tórax, Intercostal, Quadrado lombar, Reto Abdominal, Oblíquo Externo e Oblíquo Interno).
Função do abdómen
Concretamente, as funções dos músculos abdominais são (Heredia et al., 2010; Akuthota, Ferreiro, Moore & Fredericson, 2008):
dar forma à cintura e manter as vísceras na sua posição, formar a prensa abdominal (defecação, micção, parto, vómito e emunção), participar na expiração, mobilizar o tronco (flexão, rotação e flexão lateral do tronco) e estabilizar o tronco

Figura 8. Conteúdos do treino do CORE (Heredia et al., 2010; Akuthota, et al., 2008)
7. Não periodizar as cargas do treino de Força
A carga não pode ser mantida durante todo o ano na zona limite da capacidade individual.
Por isso, é necessária a alternância entre Carga-Descarga, Volume-Intensidade e Estímulo-Recuperação, buscando a Supercompensação e evitando o Sobretreino (Weineck, 2005).
Como consequência, surgem uma série de estratégias de periodização das cargas do treino de força (Heredia et al., 2012; Naclerio, 2015; Siff & Verkhoshansky, 2011; Jiménez-Gutiérrez & De Paz-Fernández, 2004):
Periodização Linear ou Clássica
Caracteriza-se por partir de intensidades baixas e volumes altos de treino. A seguir, progressivamente o volume reduz-se à medida que a intensidade aumenta.
Modelo não Periodizado ou Tradicional
Trata-se de realizar o mesmo trabalho sem variações estruturadas nas variáveis de treino (volume e intensidade não variam). Pode ser eficaz durante os primeiros 4 meses, existindo o risco de entrar num “estado de platô”.
Periodização Ondulante
Baseada em modificações do volume e intensidade de forma ondulada ao longo do ciclo de treino. Muito recomendada para pessoas treinadas que queiram estimular a força máxima alternando elevadas exigências neurais com cargas mais leves, destinadas a estimular outra direção de força.
8. Objetivos difusos e inalcançáveis
Um componente importante do Planeamento do treino desportivo é o estabelecimento de objetivos claros e alcançáveis.
Ou seja, os conteúdos de Força, Resistência, Flexibilidade e Velocidade devem respeitar os princípios da sequenciação ótima intra e inter-sessão.
Especificamente, para o desenvolvimento concorrente ou isolado da Força e da Resistência o Modelo Teórico de Interferência (Figura 9) será um elemento de referência (Docherty & Sporer, 2000).

Figura 9. Modelo Teórico de Interferência (Docherty & Sporer, 2000)
Em poucas palavras, se o objetivo é desenvolver de forma concorrente ou isolada os conteúdos de Força e Resistência, devem ser tidos em conta os seguintes pontos (Peña, Heredia, Aguilera, Da Silva & Del Rosso, 2016):
- A força é a capacidade mais prejudicada quando se treina força e resistência simultaneamente.
- O treino e desenvolvimento da força é mais necessário e positivo para a melhoria da resistência do que o contrário.
- Os treinos de resistência e de força realizados em dias separados provocam respostas neuromusculares e endócrinas agudas e padrões de recuperação diferentes que podem em parte explicar as limitações nos ganhos de força quando ambos os treinos são combinados na mesma sessão.
- A ordem da sequência de exercício nas sessões de treino concorrente não parece afetar as adaptações geradas sobre os ganhos de força, hipertrofia e resistência em sujeitos jovens moderadamente ativos, adultos mais velhos, ou sujeitos desentrenados, pelo menos quando a frequência e volume de treino seja moderado.
- A possível interferência entre as adaptações produzidas por ambos os tipos de treino parece acontecer com treinos prolongados no tempo ou com altas frequências de treino por microciclo (>3 sessões por semana).
- A modalidade de exercício de resistência praticada de forma concorrente pode ter efeitos distintos, sendo possivelmente a corrida a modalidade que interfere de forma mais significativa nos ganhos de força e hipertrofia nos membros inferiores.
9. Desorganização dos Movimentos Hierárquicos
Os atletas que realizam movimentos funcionais em alta velocidade com o objetivo de aumentar a produção de força devem sempre usar uma versão do exercício que consigam executar de forma competente, e quando a fadiga começa a degradar a forma, devem usar um movimento mais simples que conserve o estímulo de treino desejado (Manseau, 2015).
Uma correta organização dos Movimentos Hierárquicos (Figura 10) começa por entender estes mesmos como uma forma de progressão através de (Manseau, 2015):
- Hierarquia Vertical: verticalmente, estes padrões começam com movimentos simples que preservam o estímulo de treino desejado. Por outro lado, no documento original, cada exercício está representado com um aumento em complexidade, em termos de exigência de flexibilidade, equilíbrio, coordenação, etc.
- Hierarquia Horizontal: horizontalmente, os movimentos são escalonados para indicar como os exercícios mais complexos dependem dos menos complexos.

Figura 10. Movimentos Hierárquicos (Manseau, 2015)
10. Conexão mente-músculo
Uma das sensações habituais que os desportistas podem transmitir durante ou após as sessões de força é a famosa afirmação “não consigo ativar este músculo”.
Este tema está relacionado com a concentração e o foco atencional (conexão mente-músculo) (Wulf, 2013; Calatayud et al., 2016).
O foco atencional é uma ferramenta importante para aumentar o rendimento em força ou para maximizar os ganhos de massa muscular (Schoenfeld & Contreras, 2016). No entanto, existem uma série de perturbações que podem difuminar a nossa focalização.

Por exemplo, um músculo inibido por uma lesão, problemas nervosos, exercícios globais, entre outros
Fontes Bibliográficas
- Weineck, J. (2005). Treino Total. Barcelona, Espanha: Paidotribo.
- Siff, M. C. & Verkhoshansky, Y. (2011). SUPERtreino. Badalona, Espanha, Paidotribo.
- Kalichman, L. & Ben, D. C. (2017). Effect of self-myofascial release on myofascial pain, muscle flexibility, and strength: A narrative review. Journal Bodywork Movement Therapies, 21(2), 446-451.
- Su, H., Chang, N. J., Wu, W. L., Guo, L. Y. & Chu, I. H. (2017). Acute Effects of Foam Rolling, Static Stretching, and Dynamic Stretching During Warm-ups on Muscular Flexibility and Strength in Young Adults. Journal of Sport Rehabilitation, 26(6), 469-477.
- Sainz de Baranda, P. & Cejudo, A. (2016). Prescrição dos exercícios para a Readaptação Físico-Desportiva: Flexibilidade. Mestrado Prevenção e Readaptação de Lesões Físico-Desportivas no Futebol. Madrid: RFEF.
- McCrary, J. M., Ackermann, B. J. & Halaki, M. (2015). A systematic review of the effects of upper body warm-up on performance and injury. British Journal of Sports Medicine, 49(14), 935-942.
- McGowan, C. J., Pyne, D. B., Thompson, K. G. & Rattray, B. (2015). Warm-Up Strategies for Sport and Exercise: Mechanisms and Applications. Sports Medicine, 45(11), 1523-1546.
- Seitz, L. B. & Haff, G. G. (2016). Factors Modulating Post-Activation Potentiation of Jump, Sprint, Throw, and Upper-Body Ballistic Performances: A Systematic Review with Meta-Analysis. Sports Medicine, 46(2), 231-240.
- Rothenberg, B. & Rothenberg, O. (1995). Touch Training for Strength. Human Kinetics Publishers.
Entradas Relacionadas
- Repetições na reserva: autocontrolo da tua força
- Eliminando a coativação antagonista
- Treino de Carga Neural
- Efeitos da periodização linear VS não linear

Blog de Fitness, Nutrição, Saúde e Desporto | Blog HSN En el Blog de HSNstore encontrarás tips sobre Fitness, deporte en general, nutrición y salud – HSNstore.com 
