Qual é o Melhor Combustível para o Cérebro, Cetonas ou Glicose?

Qual é o Melhor Combustível para o Cérebro, Cetonas ou Glicose?

A maioria dos médicos e nutricionistas estão totalmente convencidos de que o cérebro se alimenta de glicose exclusivamente, e isto não é verdade, uma vez que também se alimenta de cetonas e de lactato.

Nesta publicação sobre qual é o melhor combustível para o cérebro: glicose ou cetonas. Vamos analisar os benefícios e inconvenientes de cada um deles.

A glicose: o combustível do cérebro

O teu cérebro é um dos órgãos mais importantes que tens uma vez que é o responsável pela maioria das funções importantes tais como processar informação sensorial, aprender coisas novas, movimentar ou ter sentimentos.

É onde reside toda a nossa aprendizagem, as nossas recordações e é ele que nos faz sermos nós próprios, capazes do melhor e do pior…

E tudo isto faz com que se consuma mais de 20 % das calorias diárias de todo o nosso organismo e isto que representa somente cerca de 2 % do nosso peso.

Obtenção de glicose

Os hidratos de carbono dos alimentos que ingerimos são transformados em glicose, que é a energia que pode ser utilizada de imediato pelos órgãos, permitindo realizar treinos intensos e serve de combustível para o cérebro.

Glicogenio

Outras denominações para a glicose incluem a dextrose, o amido ou o glicogénio.

O glicogénio é a principal forma de armazenamento da glicose no nosso corpo, e é armazenado no fígado e nos músculos.

Sempre que precisamos de energia, o fígado liberta-o transformando-o em glicose para poder ser utilizado por todas as células do nosso organismo.

Na vida moderna e com a alimentação atual, cheia de alimentos ricos em hidratos, o cérebro alimenta-se perfeitamente de glicose, que é a sua principal fonte de energia.

O que é que acontece quando não podemos comer hidratos?

Os hidratos de carbono não são assim tão maus, efetivamente, o cérebro prefere o açúcar como combustível principal, e consome cerca de 120 gramas por dia (1) de glicose.

Esta alimentação repleta de hidratos de carbono assegura a sua porção de glicose perfeitamente, mas o que é que acontece se não tivermos acesso à comida durante um período de tempo indeterminado?

“Não acontece nada, tanto se não comermos hidratos por não termos acesso a eles e tivermos de jejuar ou então tivermos decidido não os comer, o nosso corpo entra em cetose e conseguimos alimentar o nosso cérebro principalmente com cetonas em vez de glicose.”

Alimentos gorduosos

As cetonas: o alimento alternativo

Quando fazemos um jejum indeterminado, por:

  • Decisão própria; o
  • Não termos acesso a comida; o
  • Nos alimentarmos com uma dieta muito baixa em hidratos (dieta cetogénica).
As reservas de glicogénio (muito limitadas a cerca de 400-500 gramas) do nosso corpo (fígado e músculos) esgotam-se.

Quando isto acontece, o fígado produz cetonas a partir dos ácidos gordos que ingeres ou da gordura armazenada no teu tecido adiposo, que é aquilo que conhecemos como cetogénese (entrar em cetose).

Existem órgãos (2) que utilizam estas cetonas como combustível alternativo: o cérebro e o coração ou o musculosquelético).

É uma vantagem herdada da nossa própria evolução, uma vez que no passado não havia acesso ilimitado aos alimentos, como acontece hoje-em-dia, não existiam supermercados e inclusive a caça nem sempre era bem sucedida.

Tipos de cetonas

Existem 3 tipos:

  • Acetoacetato: é o primeiro corpo cetónico produzido pelo fígado, que depois é reduzido a beta-hidroxibutirato (otro tipo). O curioso é que, segundo consta (3), imediatamente após o nascimento preferimos acetoacetato e beta-hidroxibutirato (em vez de glicose) para o crescimento do cérebro.
  • Beta-hidroxibutirato: é formado a partir do acetoacetato, constitui 78 % dos corpos cetónicos gerados, e é um titular muito eficiente de energia, inclusive mais do que a glicose (4).
  • Acetona: é o menos abundante (2 % das cetonas na corrente sanguínea) e é o resultado da decomposição do acetoacetato.

Cerebro

Fonte de energia do cérebro

Apesar de reconhecermos a glicose como a principal fonte de energia do cérebro, este também pode utilizar perfeitamente cetonas, principalmente o beta-hidroxibutirato e acetoacetato.

O que acontece quando as reservas de glicogénio são muito baixas, ou se encontram vazias, então o corpo metaboliza a gordura armazenada para a transformar em ácidos gordos, que podem ser decompostos em cetonas que têm a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica.

Mito

Um dos motivos pelos quais existe o mito de que o cérebro só consegue funcionar com glicose é que existem células no nosso corpo que não têm mitocôndrias (centrais de energia das células), como o são os glóbulos vermelhos e algumas células do cérebro de pequenas dimensões (são muito pequenas e não têm espaço para o mitocôndrias).

Estas células necessitam de glicose e não conseguem metabolizar a gordura.

Cerca de 70 % das necessidades do cérebro podem ser satisfeitas com recurso à utilização do beta-hidroxibutirato como energia principal.

Enquanto as restantes células sem mitocôndrias se alimentam da glicose que o próprio corpo consegue criar, sem precisar de ingerir hidratos de carbono, através da gliconiogénese (ou então a partir das proteínas ou do glicerol libertado da metabolização dos ácidos gordos).

Glicose vs Cetonas

Glicose vs Cetonas

Vamos analisar os benefícios e inconvenientes de ambos relacionados com o cérebro:

Benefícios da glicose

Melhora a capacidade de atenção das crianças

Diz um estudo (5) de 1987, que observou 60 crianças entre seis e sete anos de idade, dando-lhes uma bebida que continha 25 gramas de glicose ou um placebo.

Os resultados mostraram que aqueles que tomaram a bebida cheia de glicose conseguiram manter a sua atenção durante mais tempo.

Ajuda a realizar tarefas mentais desafiantes

O cérebro gasta cerca de 11kcal/h para funcionar, mas a sua tarefa é complexa aumenta a sua necessidade energética, por isso os cientistas acreditam (6) que comer alimentos com açúcar deve melhorar o desempenho destas tarefas.

Benefícios das cetonas

Melhora o desempenho cognitivo

Esta constituiu parte das conclusões de uma meta análise (7) onde se verificou durante um teste de labirinto que o cérebro utiliza facilmente corpos cetónicos em vez de glicose e que a dieta cetogénica aumenta a PCr do cérebro humano, como se verificou através da utilização da espetroscopia MR.

Mantêm vivos os teus neurónios

Um estudo (8) observou crias de ratos após o nascimento, a um grupo deu uma dieta normal enquanto alimentaram as outras com una dieta cetogénica.

Passados cinco dias, induziram a hipoglicémia através da injeção de insulina e concluíram que os ratos que receberam a dieta cetogénica apresentaram menos perdas de neurónios pelas hipoglicémias.

Beneficiam doentes com traumas cerebrais

O trauma cerebral é causado por um forte ferimento na cabeça que danifica o tecido do cérebro.

O cérebro lesionado precisa de energia para recuperar mas não consegue metabolizar eficazmente a glicose (9). Uma dieta cetogénica em doentes com trauma cerebral fornece (10) um combustível alternativo para o cérebro na forma de cetonas.

Melhorias em doentes com Alzheimer leve

Um estudo (11) pioneiro indica que, com algumas recomendações e apoio em casa, as pessoas com Alzheimer leve conseguem melhorar a função cerebral ao aumentar os níveis de cetonas no sangue.

Inconvenientes da glicose

O açúcar pode criar adição

Uma pesquisa (12) explorou a influência do açúcar na obesidade, chegando à conclusão de que o açúcar é uma substância aditiva, uma vez que aumenta o circuito de recompensa do seu cérebro que está relacionado com a adição.

O consumo habitual de açúcar aumenta o risco de depressão

Um estudo (13) chegou à conclusão de que o açúcar está na lista de fatores que provavelmente contribuem para a depressão, visto que excesso de açúcar, especialmente o açúcar que se encontra nos refrigerantes, sumos e bolos, diminui o BDNF (brain-derived neurotrophic factor), uma proteína que mantém e promove o crescimento dos seus neurónios.

Inconvenientes da glicose

Inconvenientes das cetonas

Potenciais efeitos secundários durante a adaptação ao keto

Nem toda a gente apresenta estes efeitos secundários temporais embora seja algo normal uma vez que à medida que o cérebro se adapta à utilização das cetonas pode sofrer: dores de cabeça, atordoamento, dificuldade de concentração, tonturas e náuseas.

O que se deve à perda de água ao não introduzir hidratos de carbono na dieta, que implica a perda de eletrólitos, daí que seja importante a hidratação e reposição de eletrólitos perdidos.

Conclusões

A glicose é essencial, o que é definitivamente verdade.

Mas não precisamos de a ingerir, o nosso corpo consegue satisfazer as necessidades deste grupo de células do cérebro (menos de 30 %) e dos glóbulos vermelhos que não tenham mitocôndrias e precisam dele porque não podem usar nem cetonas nem ácidos gordos como fonte de energia.

No entanto, o açúcar está associado, como vimos, a problemas como a depressão e a obesidade, e excesso de glicose no sangue faz mais mal que bem.

Segundo os estudos anteriores, as cetonas são uma melhor fonte de combustível, já que o beta-hidroxibutirato atua como um combustível mais eficiente do que a glicose.

Cada vez existem mais pesquisas (atuais) que revelam que as cetonas podem beneficiar o cérebro tanto em pessoas saudáveis como em doentes de Alzheimer, epilepsia, lesão cerebral traumática ou Parkinson.

Referências Bibliográficas

  1. Each Organ Has a Unique Metabolic Profile – Berg JM, Tymoczko JL, Stryer L. (2002).
  2. Multi-dimensional roles of ketone bodies in fuel metabolism, signaling, and therapeutics – Puchalska P, Crawford PA (2017).
  3. Preferential Utilization of Ketone Bodies in the Brain and Lung of Newborn Rats – Y Y Yeh, P M SheehanY Y Yeh, P M Sheehan (1985).
  4. Clinical review: Ketones and brain injury – Hayden White and Balasubramanian Venkatesh (2011).
  5. Glucose improves attention and reaction to frustration in children – David Benton, Veronica Brett, Paul F.Brain (1987).
  6. Glycemic Instability and Spontaneous Energy Intake: Association With Knowledge-Based Work – Jean-Philippe Chaput , Vicky Drapeau, Paul Poirier, Normand Teasdale, Angelo Tremblay (2008).
  7. Novel ketone diet enhances physical and cognitive performance – Andrew J. Murray,*†,1,2 Nicholas S. Knight,*,1 Mark A. Cole,‡,3 Lowri E. Cochlin,* Emma Carter,* Kirill Tchabanenko,‡,4 Tica Pichulik,* Melanie K. Gulston,§¶ Helen J. Atherton,* Marie A. Schroeder,* Robert M. J. Deacon,‖ Yoshihiro Kashiwaya,# M. Todd King,# Robert Pawlosky,# J. Nicholas P. Rawlins,‖ Damian J. Tyler,* Julian L. Griffin,§¶ Jeremy Robertson,‡ Richard L. Veech,# and Kieran Clarke* (2016).
  8. Ketones Keep Neurons Alive– Carl E Stafstrom (2006).
  9. Glucose metabolism following human traumatic brain injury: methods of assessment and pathophysiological findings – Ibrahim Jalloh,corresponding author Keri L. H. Carpenter, Adel Helmy, T. Adrian Carpenter, David K. Menon, and Peter J. Hutchinson (2015).
  10. The Ketogenic Diet as a Treatment for Traumatic Brain Injury: A Scoping Review – Alexandre McDougall 1, Mark Bayley 2, Sarah Ep Munce (2018).
  11. Feasibility and efficacy data from a ketogenic diet intervention in Alzheimer’s disease – Author links open overlay panelMatthew K.TaylorabDebra K.SullivanabJonathan D.MahnkenacJeffrey M.BurnsadeRussell H.Swerdlowadef (2018).
  12. Sugar Addiction: From Evolution to Revolution – Wiss DA, Avena N, Rada P. (2018).

Entradas Relacionadas

  • O Jejum Intermitente afeta o Cérebro… continuar a ler.
  • Sabes quais são os Benefícios do Desporto para o Cérebro. Vamos contar-te em este link.
Análise do Combustível para o cérebro

Obtenção da glicose - 100%

O que é que acontece se não ingerirmos hidratos de carbono - 100%

Mito da glicose - 100%

Glicose VS Cetonas - 100%

Conclusões - 100%

100%

HSN Evaluação: 5 /5
Content Protection by DMCA.com
Sobre David Diaz Gil
David Diaz Gil
Em cada um dos geniais artigos, está depositada a essência da experiência além do rigor científico, como assim acreditam a David Díaz Gil.
Confira também
Interpretar análise de sangue
Como Interpretar uma Análise de Sangue?

Como interpretar uma Análise de Sangue? O que significam os valores principais e como decifrá-los? …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *