Lesão de Tornozelo

Lesão de Tornozelo

A lesão no tornozelo é uma das lesões desportivas mais frequentes

O tornozelo é a articulação com maior frequência de lesão, chegando a representar até 20-30% de todas as lesões desportivas, sobretudo se for de carácter recreativo ou de competição, e envolve o uso do membro inferior, como acontece no futebol, basquetebol, etc.

Entorse de tornozelo

Dentro destas, a entorse de tornozelo é a entidade mais frequente, enquanto as fraturas por trauma no tornozelo representam entre 12 e 15%

De certeza que a maioria já sofreu alguma vez uma entorse de tornozelo, pois é a lesão desportiva mais comum e representa 85 % das lesões no tornozelo. Igualmente, se tiverem a sorte de não a ter sofrido (batam na madeira), este post será de grande ajuda.

A entorse de tornozelo define-se como um alongamento violento dos ligamentos com ou sem rotura dos mesmos, produzindo uma ligeira subluxação articular, ainda que momentânea, o que limita a mobilidade articular e causa dor

Anatomia dos ligamentos do tornozelo

A articulação do tornozelo mantém a sua estabilidade graças a 3 grandes grupos de ligamentos:

IMAGEN 1 15º post

  • LIGAMENTOS TIBIOPERONEAIS (SINDESMOSE)
  • LIGAMENTO LATERAL INTERNO (DELTOIDE), constituído por 4 feixes:
    1. Fascículo Tibio-Astragalino anterior do ligamento Deltoide.
    2. Fascículo Tibio-Astragalino posterior do ligamento Deltoide
    3. Fascículo Tibio-Calcâneo do ligamento Deltoide
    4. Fascículo Tibio-Escafóide do ligamento Deltoide.
  • LIGAMENTO LATERAL EXTERNO, constituído por 3 feixes:
    1. Ligamento Peroneo-Astragalino Anterior (LPAA).
    2. Ligamento Peroneo-Calcâneo (LPC).
    3. Ligamento Peroneo-Astragalino Posterior (LPAP)

Como se produz a entorse de tornozelo?

A entorse de tornozelo ocorre, na maior parte das vezes, por um mecanismo de inversão (torção do pé em que a planta olha para dentro)

As entorses por eversão (planta virada para fora) que afetam o ligamento deltoide costumam acompanhar-se de rotura maleolar e/ou lesão da sindesmose.

Os ligamentos afetados, por ordem, são os seguintes:

  • O ligamento peroneo-astragalino anterior (LPAA) é o mais implicado em 66,5% dos casos.
  • A afetação combinada do peroneo-calcâneo e LPAA ocorre em 20%
  • Afetação do ligamento tibioperoneo anterior (sindesmose) em 10%.

As lesões que afetam a sindesmose produzem mais dor e ligeira rigidez. Em casos de torções repetidas podem surgir calcificações. É comum que esta lesão ocorra sobretudo no futebol, râguebi e basquetebol, estando descrita até na prática do esqui.

Classificação das entorses de tornozelo

Estas classificam-se segundo o nível de gravidade:

Distensão

Não é propriamente uma entorse. É um alongamento excessivo do ligamento, com lesão mínima da sua estrutura macroscópica. Mantém-se a congruência articular e não há hemorragia.

Entorse

A lesão é maior e ocorre rotura fibrilar.

Pode ser:

  • Grau I: Pequenas roturas fibrilares. Mantém-se a estrutura do ligamento e a articulação permanece estável. Muito ocasionalmente pode apresentar um edema localizado. O bostejo* é de cerca de 0-4 mm.

IMAGEN 2 15º post

*NOTA: Define-se “bostejo articular” como a abertura da linha articular causada por uma entorse
  • Grau II: A articulação continua estável, mas a rotura fibrilar é mais importante. Surge dor com o movimento e um grau leve de instabilidade. Apresentam grande hemorragia e o bostejo é entre 5-9 mm.

IMAGEN 3 15º post

  • Grau III: A rotura das fibras é completa. Ocorre uma descontinuidade no ligamento ou uma desinserção das suas ancoragens ao osso. Há um alto grau de instabilidade que é percebido pelo lesionado. Na exploração aparece um bostejo articular (maior que 10 mm), com grande edema e incapacidade funcional.

IMAGEN 4 15º post

Tratamento da entorse de tornozelo

Nas primeiras 24 horas aplicar-se-á:

  • frio,
  • bandagem compressiva,
  • elevação do membro,
  • repouso e
  • anti-inflamatórios

Técnica RICE

(RICE) é a técnica para intervir numa lesão numa primeira instância, tal como mencionado aqui aqui

Entorse grau I

Realiza-se com bandagens funcionais, cinesiterapia suave e progressiva, assim como técnicas proprioceptivas passados 5 a 10 dias.

O tratamento total requer 15-30 dias, incluindo uma reeducação proprioceptiva antes de voltar a praticar desporto ou competir

Entorse grau II

Realiza-se imobilizando com tala nos primeiros 10-12 dias. Depois, realiza-se o tratamento do entorse grau I.

O tratamento total requer 21-45 dias, incluindo uma reeducação proprioceptiva antes de voltar a praticar desporto ou competir

Entorse grau III

O tratamento é cirúrgico e requer cerca de 8 semanas antes de voltar a praticar desporto ou competir.

Se o tratamento não for correto pode ficar uma laxidez articular, mesmo que a entorse tenha sido grau I

Ferida no tornozelo

Também pode ser realizada RMN se a sintomatologia persistir mais de 6 semanas ou para descartar alguma fratura oculta que tenha passado despercebida

Em qualquer dos casos, mesmo que os sintomas façam pensar numa entorse leve grau I, é necessário o estudo radiológico para classificar o grau de bostejo (se houver) e para descartar outras lesões.

Por isso é recomendável ir a urgências quando acontecer

Fraturas de tornozelo

A lesão de tornozelo por fratura da articulação é das lesões ósseas a que ocorre com maior frequência em todas as idades, com um predomínio de 75%

A sua etiologia é quase sempre um traumatismo indireto de baixa energia, frequentemente causado durante a prática desportiva ou nas atividades do dia a dia.

Fratura de tornozelo

Nas últimas duas décadas houve um aumento na prevalência e incidência destas fraturas, tanto em pacientes jovens e ativos como em idosos

Além disso, são as fraturas intraarticulares mais frequentes das articulações de carga e, por isso, com grandes implicações biomecânicas ao suportar o tornozelo forças equivalentes a quatro vezes o peso corporal total

Que faixa etária sofre fraturas de tornozelo?

Segundo estudos realizados, a média de idade dos pacientes com fratura de tornozelo situa-se entre os 29 e 33 anos, seguida do grupo entre 24 e 28 anos

Isto pode dever-se ao facto de as pessoas nestes grupos etários serem tanto fisicamente como economicamente mais ativas.

Por conseguinte, têm maior risco de apresentar este tipo de lesões devido a traumatismos do dia a dia, desportivos ou automóveis, aliado ao aumento da atividade desportiva nestas idades.

Quanto ao sexo, os homens lesionam-se com mais frequência que as mulheres, o que pode dever-se ao facto da prática desportiva ser maioritariamente masculina, embora também se deva considerar os fatores sociais que fazem com que as mulheres pratiquem menos desporto que os homens

Quando ocorrem mais casos de fraturas de tornozelo?

Observou-se que no primeiro trimestre do ano (inverno) se registam mais casos de fraturas de tornozelo

Esta diferença pode ser influenciada pelo facto de que durante os meses de inverno, que coincidem com o período escolar e laboral, a prática de desporto é não só mais frequente como também mais rotineira, pois faz parte das atividades programadas nos planos de estudo oficiais e extracurriculares, assim como dos períodos de lazer ou descanso das pessoas inseridas no mundo laboral.

Tornozelo partido

Lesão no tornozelo

Desporto com maior risco de fratura de tornozelo

Quanto ao tipo de desporto que causou o acidente, observamos que o futebol foi, de longe, o desporto mais frequente (70% dos casos)

Há maior frequência de fraturas de tornozelo fechadas em relação às abertas, que são minoritárias (2%).

Considerando as fraturas segundo o número de maléolos afetados, encontramos tanto um predomínio das fraturas unimaleolares como bimaleolares. A rotura do ligamento deltoide é a lesão associada mais frequente. Quanto ao tipo de tratamento realizado, o mais utilizado é o cirúrgico.

Lesões no futebol

A lesão no tornozelo é maioritária no futebol

Os implantes mais usados são os parafusos (54,8 %)

A maioria dos pacientes é operada nas primeiras 24 horas após a admissão, pois o tratamento precoce ou urgente das fraturas de tornozelo é defendido por vários autores para evitar complicações e melhorar o resultado funcional

Instabilidade do tornozelo

As entorses de tornozelo constituem uma grande percentagem do total de lesões, não só em desportistas, mas também nas consultas de cuidados primários

Assim, este tipo de lesão é a mais frequente derivada da prática desportiva, representando até 22% do total de lesões.

A instabilidade crónica do tornozelo é a incapacidade de manter a mobilidade normal do tornozelo, perdendo o controlo do mesmo em determinadas situações, o que se traduz em entorses de repetição (recidivas) e numa sensação constante de insegurança durante a realização de certas atividades

Instabilidade do tornozelo

De facto, estima-se que o índice de recidiva dos pacientes que sofreram uma entorse severa é de 80%

Por que se produz a instabilidade do tornozelo?

A instabilidade crónica do tornozelo manifesta-se após sofrer uma entorse aguda de tornozelo, não estando claro se a entorse se deve à instabilidade ou vice-versa

Se após ter sofrido uma entorse de tornozelo (tempo máximo de recuperação = 2 meses), ainda continuas com algum destes sintomas, é porque tens certo grau de instabilidade crónica e o objetivo será não agravar e recuperar:

  • Laxidez ligamentar.
  • Perda de proprioceção.
  • Diminuição da amplitude de movimento.
  • Edema permanente.
  • Aparecimento de dor durante certas atividades.
  • Sensação de instabilidade.

Não só para retomar a atividade física, mas também porque, ao ser afetada a capacidade funcional, repercute na qualidade de vida, em atividades como subir e descer escadas ou caminhar.

Recuperação da lesão de tornozelo

A força adquire uma importância notória

O controlo neuromuscular é outro fator a ter em conta, pois foi evidenciado que nos pacientes com deterioração das unidades motoras musculotendinosas, a probabilidade de sofrer uma entorse é maior.

Recuperação da lesão de tornozelo

Lembremos que uma das adaptações que ocorrem com o treino de força é, precisamente, a melhoria no recrutamento das unidades motoras.

É certo que o controlo postural e a proprioceção (capacidade do organismo de detetar a posição das suas diferentes partes no espaço) são aspetos chave e fundamentais na recuperação; no entanto, a força também o é e costuma ser esquecida.

Uma razão pode ser a dificuldade de usar certos métodos de medição de força na musculatura do tornozelo devido ao comprimento da musculatura própria desta zona.

Por isso, alguns métodos de avaliação da recuperação recorrem a movimentos realizados em cadeia cinética aberta (exemplo: torções contra resistência no ar), que não coincidem com as características da maioria das tarefas próprias de atividades funcionais ou desportivas que se realizam em cadeia cinética fechada no caso da articulação do tornozelo.

Por estes motivos, os exercícios devem basear-se na variedade de estímulos, incluindo a força como uma qualidade importante a desenvolver

Metodologias de reabilitação da lesão de tornozelo

Podem ser usados diversos tipos de materiais, sendo os objetivos primários aumentar a instabilidade e exigir mais força.

Exercícios no colchonete

A espessura do colchonete influenciará a estabilidade do mesmo, por isso quanto maior a espessura, maior o grau de instabilidade e mais difícil será a correta execução da tarefa.

Bosu

No início, pode tentar-se manter o equilíbrio com a base plana apoiada no chão em apoio bipodal. Posteriormente, passar para apoio monopodal; e para aumentar a instabilidade vai-se reduzindo a superfície de apoio do bosu com o chão, ou seja, a parte plana será agora a que fica disponível para realizar o apoio.

bosu

Saltos sem contramovimento

Principalmente, permitem melhorar a força explosiva da musculatura geral, mas também da que envolve e funciona na articulação do tornozelo.

saltos

Fontes

  1. Mitch Kaplan. Guia de lesões do desportista. Ed. Hispano Europeia (Barcelona) (2004).
  2. A. Hüter-Becker. A reabilitação no desporto. Editorial Paidotribo (Barcelona) (2005).
  3. Ronald P. Pfeiffer e Brent C. Mangus. Lesões desportivas. Editorial Paidotribo (Barcelona) (2007).
  4. C. Moreno Pascual, V. Rodríguez Pérez e J. Seco Calvo. Epidemiologia das lesões desportivas. Fisioterapia 2008;30(1):40-8.
  5. Sous Sánchez, J.O.; Ruiz Caballero, J.A.; Brito Ojeda, M.E.; Navarro García, R.; Navarro Valdivielso, M.E. e Navarro Navarro, R. (2013). Fraturas de tornozelo em desportistas. Estudo epidemiológico / Ankle fractures in athletes. Epidemiological study. Revista Internacional de Medicina y Ciencias de la Actividad Física y el Deporte vol. 13 (50) pp.257-278.Http://cdeporte.rediris.es/revista/revista50/artfracturas371.pdf
  6. Cruz Díaz, D. (2013). Tese de Doutoramento: Instabilidade crónica do tornozelo: Tratamento mediante mobilizações articulares e um programa de treino proprioceptivo. Validação da versão espanhola do questionário “Cumberland Ankle Instability Tool”. Faculdade de Ciências da Saúde Departamento de Ciências da Saúde. Universidade de Jaén.
  7. Martín Urrialde, J. A., Patiño Núñez, S., & Bar del Olmo, A. (2006). Instabilidade crónica do tornozelo em desportistas. Prevenção e atuação fisioterapêutica. Revista Iberoamericana de Fisioterapia y Kinesiología, 9(2), 57-67.

Entradas relacionadas

Content Protection by DMCA.com
Sobre Javier Colomer
Javier Colomer
Apresentamos-te o nosso autor Javier Colomer. "Knowledge Makes Stronger" é a sua declaração de intenções para partilhar todos os seus conhecimentos sobre fitness.
Confira também
Tiroide: como regular as hormonas através do exercício
Tiroide: como regular as hormonas através do exercício

Numerosos estudos abordaram a função da tiroide durante o exercício, com resultados diferentes. Alguns investigadores …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Exoneração de responsabilidade
Este blog não está destinado a dar conselhos, tratamentos ou diagnósticos médicos. Consulta com o teu médico e/ou profissional de saúde para qualquer tema referente à tua saúde. A finalidade de redação dos artigos deste blog é meramente informativa, não há pretensão nem intenção de substituir qualquer diagnóstico ou tratamento médico. Todos os artigos deste blog são opiniões dos seus autores, não condicionando HSN em nenhum momento a temática sobre a que escrevem, o seu conteúdo e/ou afirmações realizadas.
N.º de Registo Sanitário: 26.11001/GR
N.º de Registo Sanitário: 40.048706/GR
N.º de Registo Sanitário: 26.017818/O