A Síndrome do Piramidal é possivelmente uma das patologias mais comuns atualmente. Vamos conhecer o que é, como se produz e os exercícios para poder tratá-lo
Índice
Anatomia do músculo piramidal
O piramidal ou piriforme faz parte do grupo conhecido como músculos pelvitrocantéricos e, como tal, encontra-se localizado na pelve.
Tem origem na face anterior do sacro e insere-se na borda superior do trocânter maior do fémur

A sua função principal é proporcionar estabilidade à pelve, ou seja, na verdade não tem um movimento definido, mas sim faz ajustes continuamente para se adaptar aos movimentos maiores que realizam as estruturas associadas à anca e a ela própria.
O que é a Síndrome do Piramidal?
Em praticamente todos os casos, a causa desta patologia é uma questão mecânica.
E a razão dessa afetação é principalmente ter uma má higiene postural gerada em maior medida por passar demasiado tempo sentado.
Por outro lado, a prática de exercício inadequado relativamente à disposição e função musculoesquelética e sobretudo fascial, é o que propicia que a dor tão limitante que gera esta disfunção se agrave e cronifique, pois, ao comprometer-se a mecânica funcional, gera-se um mau padrão neuromotor que se torna mais forte quanto mais tempo estivermos sem devolver à normalidade o padrão biomecânico correto de toda a estrutura, sobretudo em contextos dinâmicos.

Os sintomas também pioram se não houver nenhum tipo de exercício físico, pois se continuarmos com os mesmos maus hábitos posturais, da mesma forma instala-se uma má conexão neural
O problema de passar muito tempo sentado
Os isquiotibiais encurtam-se e com muito mais restrição fascial ao nível do joelho, sobretudo o bíceps femoral que também roda externamente a perna, pois quando estamos sentados, normalmente deixamos as pernas penduradas para os lados.
O que acontece quando passamos muito tempo sentados é que, entre outras coisas, se produzem encurtamentos musculares

Os flexores da anca, tão potentes como o psoas (que também auxilia a rotação externa) e o reto anterior do quadríceps, também sofrem encurtamento.
Com isso, o tensor da fáscia lata tensa em excesso toda a banda iliotibial, produzindo um espessamento gradual da mesma que gera muita tração descompensando as tensões lombo-pélvicas.

Tanto o glúteo médio como o menor também se encurtam e perdem a sua capacidade sinergista estabilizadora
Todos estes encurtamentos manifestam-se depois na hora de ficarmos erguidos e nos mexermos. A anca desloca-se para a frente, desviando o centro de gravidade do seu eixo principal e aumentando a compressão lombar.

Na maioria dos casos também se produz hiperlordose.
Isto por sua vez produz sobreativação da musculatura pelvitrocantérica, que passa a desempenhar um papel diferente daquele para que foi desenhada e/ou sofre um comportamento biomecânico disfuncional.
Por sua vez, este desalinhamento faz com que os fémures rodem externamente, deixando o piramidal em contração constante, que chega a contrair-se e aumentar de tamanho, o que pressiona diretamente o nervo ciático, irritando-o e produzindo dor

Normalmente a dor de uma pseudo-ciática só irradia até à zona da fossa poplítea, na parte posterior do joelho, em vez de irradiar até ao pé como aconteceria se tivéssemos uma ciática pura
Como podemos aliviar a Síndrome do Piramidal?
A libertação miofascial é, provavelmente, a forma direta mais eficaz para mitigar a dor que esta disfunção produz.
A ação da fáscia sobre o músculo é de total dominância, por isso é importante a informação de relaxamento que damos através da massagem

A libertação miofascial é a técnica que podemos usar para mitigar e na maioria dos casos produzir a “cura” desta dor.
Por que ocorre a Síndrome do Piramidal?
Este fenómeno não é algo fortuito, genético ou casual como a maioria das pessoas pensa. Se tudo funcionasse corretamente e cada estrutura do nosso corpo se encarregasse de realizar naturalmente a sua função, sem dúvida viveríamos livres de patologias.

Dito isto, com toda a probabilidade, tudo começa a partir de uma série de disfunções mecânicas adquiridas devido a uma má higiene postural somada também em muitos casos a exercício físico inadequado, como já referi.
Após sobrecarga do nosso sistema neuromuscular com maus padrões posturais, a musculatura começa a comportar-se de forma incorreta, fica inibida e/ou perde a capacidade de trabalhar nas suas funções primárias fazendo com que músculos especializados em mover-se deixem de o fazer e outros encarregados de estabilizar tenham trabalho em excesso.
Neste caso, deve-se realizar exercícios que devolvam as funções principais da musculatura tendo sempre em conta contextos, dinamismo e finalidade na hora de aplicar esses exercícios.

Seria assim como desligar um cabo mal ligado e voltar a ligar o cabo correto…
Usar Foam Roller
É certo que, para quem sofre deste problema e ainda mais se o arrasta há algum tempo, pode ser bastante complicado fazer a massagem sozinho, pela dor contínua que possa ter e até pela falta de precisão anatómica se desconhecer o tema.
Para aplicar a massagem podemos usar o foam roller ou uma bola de ténis ou de Lacrosse, esta última se já suportarmos bastante bem a pressão.

Por isso, nestes casos o melhor é recorrer a um profissional, que saberá com muito mais exatidão as zonas a trabalhar e aplicará as técnicas com maior eficácia.

Se não soubermos exatamente o ponto onde colocar a bola ou por que zona passar o foam roller, simplesmente aplicamos a massagem cobrindo toda a área onde se encontra esse músculo afetado ou sobre o qual queremos trabalhar
Sobre o Glúteo
Podemos aplicar a massagem diretamente sobre o músculo piramidal, que localizaremos mais ou menos na zona medial glútea e de forma transversal. Neste caso posicionamo-nos deitados de costas com as pernas flexionadas e colocamos a bola debaixo do glúteo sobre o qual vamos trabalhar. Será fácil localizá-lo, pois se estiver afetado, sentiremos mais dor nesse ponto em concreto.
Não temos de ter medo de pressionar, simplesmente medir a pressão que exercemos sobre esse ponto e aguentar um tempo. Também podemos realizar um movimento de abdução/addução da perna enquanto libertamos.
Para aplicar uma massagem mais geral, sentamo-nos sobre o foam roller com as pernas flexionadas e para o lado afetado, apoiando a zona médio-externa do glúteo e aguentamos uns minutos.
Quando notarmos que a dor vai dissipando um pouco, então começamos a rolar sobre toda a superfície, para a parte alta do glúteo maior e médio, na inserção, junto à borda da pá ilíaca, até à zona mais inferior, chegando às suas inserções no fémur.
Sobre isquiotibiais
Esta libertação o melhor é fazer sentado e com a bola, por simples comodidade. Em qualquer cadeira ou banco ou superfície dura onde possamos sentar-nos. Mantendo uma posição neutra da coluna, colocamos a bola debaixo da perna e colocamos todo o peso da mesma sobre ela.
Neste caso, as zonas importantes a trabalhar serão as mais próximas do joelho e as próximas ao ísquion ou como todos conhecemos o famoso ‘osso do rabo’:
- Zona do joelho: posicionamos a bola num ponto doloroso, pressionamos e realizamos extensão do joelho lentamente até onde pudermos sem modificar a posição do tronco e voltamos a flexioná-lo. Faremos as repetições que considerarmos. Também podemos manter o joelho em extensão por alguns segundos e aguentar.
- Zona do ísquion: localizamos o osso e posicionamos a bola na face anterior do mesmo (face próxima do joelho), a uns centímetros dele. Esta área está bastante inervada, por isso vamos evitar manter uma posição estática sobre a bola e procederemos a realizar um movimento lateral, passes transversais em relação à direção das fibras isquiotibiais que vão desde a tíbia e inserem-se no próprio ísquion.
Sobre quadríceps
Para esta libertação adotaremos uma posição em decúbito ventral e poderemos usar tanto o foam roller como a bola. Simplesmente posicionamos qualquer uma das duas ferramentas debaixo da coxa e procedemos a realizar passagens longitudinais e lentas.
A musculatura mais importante a libertar neste caso pela sua implicação negativa no desenvolvimento desta disfunção, são o reto do quadríceps, que se situa na zona mais central da coxa e vai desde a anca até ao joelho, e o vasto externo do quadríceps que se situará na face mais externa do mesmo, também de forma longitudinal.
Sobre adutores
Podemos escolher diferentes formas de aplicar libertação miofascial sobre os adutores, mas talvez a mais confortável e simples seria deitar-nos de lado sobre um tapete, colocar o foam roller ou até uma kettlebell em pé, se a tivermos, à nossa frente, flexionar a anca que ficar por cima levando a perna para a frente e deixá-la cair sobre a ferramenta que usarmos incidindo em toda a inserção dos adutores ao longo do fémur, sobretudo na segunda metade próxima do joelho.
Sobre o abdómen e Psoas
De novo deitados de barriga para baixo e com os braços apoiados à frente de nós como se fizéssemos o exercício de prancha abdominal, colocamos a bola na zona superior do reto abdominal junto à borda costal, mas procurando a inserção de cada ventre ao lado do apêndice xifoide, que evitaremos pressionar. Simplesmente mantemos a bola nesse lugar e tentamos relaxar e respirar abrindo a caixa torácica.
Sentiremos como a bola quer entrar por baixo das nossas costelas. Não se preocupem. É importante fazer de forma progressiva e ir modificando o peso que colocamos sobre a bola conforme a dor vai dissipando. E digo dor porque no início, e se nunca se fez esta libertação, pode sentir-se uma espécie de incómodo parecido com um beliscão ou picada, mas que vai desaparecendo conforme trabalhamos neste ponto.
Detalhar que esta libertação também incide de forma muito positiva sobre o diafragma torácico, o que se traduz numa melhor resposta do diafragma pélvico e numa melhor repartição das tensões pélvicas
Sobre o púbis
Também é interessante trabalhar sobre a inserção do reto abdominal na zona púbica, pelo que na mesma posição, colocaremos a bola mesmo antes de chegar ao osso do púbis e realizaremos passagens transversais por toda a zona.
Dicas a Considerar ao Fazer Automassagem
- É importante não prender a respiração enquanto massageamos o tecido, caso contrário não conseguiremos os efeitos desejados da libertação miofascial. Por isso, tentaremos relaxar e manter uma respiração constante.
- Procuraremos sempre uma posição confortável, sobretudo ao deitar no chão. Se for o caso, procuraremos a ajuda de uma almofada para apoiar a cabeça e mantê-la alinhada com a coluna.
- Não basta aguentar um pouco de tempo e já. Há que ser pacientes e para um trabalho eficaz rondaremos os 5 – 10 min por zona. Também não é necessário fazer todas as zonas no mesmo dia.
Conclusões
Infelizmente vivemos num ambiente que evoluiu de forma negativa em relação ao meio que, biologicamente, nos proporcionava um equilíbrio entre stress e funcionalidade (atividade física)
Antes, na nossa natureza, qualquer situação de stress era enfrentada de forma ativa, através do exercício físico, corríamos, caçávamos, etc., um estímulo capaz de regular o nosso sistema hormonal e neuromuscular sem provocar alterações na nossa biologia como seres humanos.

No entanto, hoje em dia, a nossa adaptação está sujeita a um ambiente de trabalho, estudo, confortos, marketing e certos avanços tecnológicos que nos fazem perder a noção do que realmente somos e precisamos fazer para continuar a manter esse equilíbrio corpo/mente.
O nosso meio foi evoluindo até conseguir que o exercício físico seja uma opção e fique em segundo plano…
Nós continuamos a ser as mesmas máquinas e, embora tenhamos a capacidade de nos adaptar a qualquer ambiente, este não faz mais do que encher o nosso corpo de tensões em locais onde biomecanicamente não devem estar, e para piorar, não lhes prestamos a devida atenção nem colocamos os meios necessários para solucionar e contrariar os efeitos que elas têm sobre nós.

Ao libertar estas tensões conseguimos que se distribuam obtendo um bom comportamento tenségrico das estruturas, e não só da zona média, que costuma ser uma das que mais sofre, mas de qualquer outra mais distal que nos implique dor.
- Devemos prestar muita atenção às más posturas que adotamos no dia a dia e aos exercícios que realizamos e que possam ser nocivos para a nossa mecânica funcional e que na maioria dos casos repercutem negativamente sobre esta, pois já os realizamos sob disfunções.
- Deveria estar presente na nossa própria educação a curiosidade ou inquietação de procurar a forma de melhorar constantemente a nossa saúde perante qualquer doença, seja por meios próprios ou de um profissional e poder ter uma boa qualidade de vida o máximo tempo possível, pois penso que deve ser um dos nossos propósitos na vida, por simples biologia.
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