Qual é a relação entre Exercício e Autofagia? É mais potente e eficaz o Exercício em face do Jejum Intermitente para potenciar a Autofagia?.
Índice
Enfrentar-se ao Envelhecimento
O envelhecimento conduz a uma série de alterações moleculares e celulares, que ao fim e ao cabo são consequência direta do declínio fisiológico que todos experimentamos mais tarde ou mais cedo.
Dito declínio, inevitável, incomoda-nos.
Culturalmente não aceitamos muito bem o envelhecimento e a morte. Perspetiva não partilhada por outras muitas culturas.

Nos últimos anos, a tendência a exacerbar tudo o que é “antiaging” foi indo em aumento.
Procedimentos estéticos de todo o tipo, terapias físicas, dietas do mais estapafúrdio possível e outras técnicas com evidências mais que questionáveis.
O que é a Autofagia?
A autofagia é um processo celular ubíquo (presente na maioria de células) e necessário para a vida.
Isto é, sem autofagia não estaríamos vivos ou duraríamos poucos anos.
Isto já nos põe de sobre-aviso a respeito das perspetivas dicotómicas “a preto e branco” que vemos em redes continuamente: …“Isto anula a autofagia”; “Este outro maximiza a autofagia”…

Trata-se de um processo de reciclagem celular daquilo que não serve.
Semelhante para entender melhor
- Na tua casa geras lixo.
- Lixo como o que existe e há que fazer alguma coisa (deitá-la fora), caso contrário irá acumular-se.
- Um pouco de lixo acumulado não origina nenhum problema.
- Mas, conforme a quantidade de lixo aumenta, a funcionalidade do resto da casa vai diminuindo.
- Por outras palavras, esse lixo (parte não funcional da casa) está a começar a interferir com a funcionalidade do resto de estruturas saudáveis do teu lar (tudo o que não é lixo).
A nível celular
O mesmo se passa na célula.
A célula é um organismo vivo, que trabalha continuamente a favor de um sistema maior. Esse trabalho, além de necessidade de energia, gera resíduos.

Mas uma célula saudável tem os seus mecanismos para se desfazer desses resíduos.
O que são os Autofagossomas?
Toda esta amálgama inútil envolve membranas, formando os conhecidos como autofagossomas.
Imagina um saco do supermercado com lixo lá dentro. Pois estamos a falar de uma coisa parecida.
Para eliminar o lixo, temos um modo muito original de o fazer: existem umas organelas chamadas lisossomas, carregadas de conteúdo ácido, que se fundem com os autofagossomas, vertendo o conteúdo ácido dentro do mesmo.
Esta é a bonita forma que tem a célula de “deitar fora o lixo”.

Tipo de Autofagia
Como já antes tinha referido, entender a autofagia não é coisa simples. Pese o facto de que nos referimos a ela com um termo unívoco, realmente a autofagia divide-se em:
- Macro-autofagia
- Micro-autofagia
- Autofagia mediada por “velas”
A pergunta é: podemos interferir ou modificar o processo de autofagia?
Envelhecimento e Exercício Físico
Como já referimos, e ao nível celular, o envelhecimento caracteriza-se por um acumular de proteínas mal dobradas e organelas celulares deterioradas que aumentam o risco de morte celular e alteração da homeostase no organismo.

Exercício físico.
O exercício físico define-se, segundo Caspersen, como aquela atividade física planificada, estruturada e regular, realizada com o objetivo de melhorar a forma física (fitness). Esteve presente durante toda a evolução e moldou a nossa fisiologia, como não me canso de explicar.
O que acontece quando não se faz exercício suficiente?
Vivemos o paradoxo de que, apesar de se viver mais, cada vez chegamos pior à fase de adultos mais velhos. Isto só se pode reverter mediante exercício físico.
Mas a nossa sociedade vê o exercício físico, depois dos 50 anos, como algo desnecessário ou inclusivamente perigoso.

Eu diria que depois dos 50 é ainda mais necessário!
Tendemos a fragilizar as pessoas mais velhas, a tratá-as como se fossem de cristal, e este facto apenas vai fazer com que sejam mais frágeis.
É curioso, mas na maioria de clínicas antiaging o exercício fica relegado para segundo plano, quando realmente é a única intervenção antiaging que está sobejamente demonstrada.
Efeitos neuroprotetores do exercício
Em ratos, os efeitos neuroprotetores do exercício físico são muitos:
- Maior neurogénese
- Menor perda de neurónios dopaminérgicos
- Maior capacidade antioxidante
- Maior AUTOFAGIA.
Jejum Intermitente ou Exercício para potenciar a Autofagia?
Toda a gente fala do jejum intermitente para maximizar a autofagia e deter o envelhecimento, mas e se te dissesse que o exercício a maximiza ainda mais?.
8 semanas de passadeira em ratos aumenta consideravelmente a proteina Beclina 1 relacionada com níveis de autofagia (Andreotti et al., 2020).
A célula começa a “reciclar” elementos celulares defeituosos quando necessita energia, ou pensa que poderíamos estar perante uma situação de alta exigência energética.

Talvez aqui o que é importante, é entender o termo “reciclagem celular”.
A célula não malgasta o lixo, reutiliza-o para dar lugar a outras estruturas funcionais.
E como sabe a célula que estamos perante uma situação de défice de energia?
Ratio ATP/AMP
Ao reduzir a ratio ATP/AMP na célula com o exercício físico activa-se a famosa proteina quinase (ou kinase) AMPK.
- Quando a célula ativa AMPK, está a ativar um programa que busca a todo o custo gerar energia. As caldeiras (mitocôndrias) da célula vão acender-se ao máximo (metabolismo oxidativo).
- AMPK inibe desta forma a mTOR: essa situação, AMPK ativa e o mTOR inativo, aumenta as proteínas relacionadas com a autofagia (algo que também acontece em jejum).
Tipo de Exercício para maior Autofagia
O tipo de exercício que façamos determinará a maior ou menor ativação da autofagia e é espectável que o exercício cardiovascular, que gera um maior gasto energético, ative mais os processos de autofagia que o exercício de força.

Isso não quer dizer que este último não tenha impacto sobre autofagia.
Além do mais, sabemos por estudos com animais (em humanos estudar a autofagia não é fácil, por muitos motivos diferentes) que o exercício físico:
- Aumenta a quantidade de lisossomas (esses saquinhos carregados de ácido que servem para desintegrar elementos não funcionais)
- Melhora a dinâmica mitocondrial e a mitofagia (as mitocôndrias também têm que ser “recicladas” quando chegar o momento)
- Aumentam outras proteínas relacionadas com a autofagia
Conclusões
Toda a gente fala do jejum intermitente para maximizar a autofagia.
Isto não é de todo descabido, uma vez que jejuar durante um número de horas determinado gera adaptações celulares que promovem a famosa reciclagem celular.
O que não sabemos é em que medida isto acontece. Também não sabemos a partir de que hora a potenciação da autofagia acontece, nem a partir da qual se estabiliza.
Não sabemos muito e sabemos pouco.
Sem dúvida, um campo brutal no que investigar na próxima década.
Vamos manter-vos informados. Um forte abraço e a vamos continuar a treinar!
Bibliografia
- Andreotti, D. Z., Silva, J. do N., Matumoto, A. M., Orellana, A. M., de Mello, P. S., & Kawamoto, E. M. (2020). Effects of Physical Exercise on Autophagy and Apoptosis in Aged Brain: Human and Animal Studies. Frontiers in Nutrition, 7, 94.

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