Hoje vamos falar de um conceito que, se são desportistas de endurance, é possível que já o tenham utilizado. Referimo-nos ao tapering.
O treino desportivo é um estímulo externo stressante que submete o organismo a uma série de alterações funcionais e estruturais, derivadas das exigências do próprio exercício físico (Hughes, Ellefsen e Baar, 2017).
Já te perguntaste alguma vez por que motivo um desportista de resistência se adapta e melhora a sua capacidade e um de força melhora a sua eficiência nervosa?
Os tecidos do organismo são plásticos, e adaptam-se à carga de trabalho específica a que são submetidos.
Fica por aí, pois vou explicar-te o que deves fazer para preparar uma competição desportiva!
Índice
O que é o tapering?
Consiste em obter um pico de forma mediante um processo planificado, no qual diminuimos a carga de treino durante um período variável de tempo, numa tentativa de reduzir o stress fisiológico e psicológico do stress diário e otimizar o rendimento desportivo.

Figura I. Indicação da fase de recuperação na etapa de “alarme” de GAS (Adaptado de Zatsiorsky e Kraemer, 2006).
Revisão da metodologia do treino básico
O que é a Homeostase?
A homeostase é o equilíbrio fisiológico no qual o nosso corpo se mantém. Tudo está estritamente delimitado e controlado para que nada saia das suas margens de normalidade.

Os processos de adaptação não são mais que passos necessários que o organismo realiza para manter a homeostase.
Princípio de Le Chântelier
Explica isto:
«Em face de uma perturbação do organismo, causada por um fator externo, este responderá adaptando-se a esse fator para recuperar o equilíbrio.»
Síndrome Geral de Adaptação (GAS)
Relembra-te que a capacidade do organismo base (nível de resistência normal) sofre uma diminução devido a um fator externo stressante (exercício físico) na “reação de alarme”, e produz uma série de adaptações contra-choque para se preparar para o seguinte estímulo com o mesmo perfil (alcançando um nível acima da base).

Figura II. Síndrome Geral de Adaptação (Estremera et al., 2017).
Princípio de Super Compensação
O Síndrome Geral de Adaptação está estreitamente ligado ao Princípio de Super Compensação.

Figura III. Princípio de super compensação (Jensen, 2016).
É o processo desagregado da “reação de alarme”.
Isto é importante porque, em função da carga de treino a que vamos submeter o organismo, podemos encontrar 3 tipos de adaptação do estado de forma:
- Positiva: Carga adaptativa.
- Neutra: Carga não efetiva.
- Negativa: Carga desadaptativa.

Figura IV. Perfis de super compensação em função da grandeza e frequência das cargas (Zatsiorsky e Kraemer, 2006).
Efeitos do tapering
Em Desportos de Endurance
O tapering foi um processo muito estudado em desportos de endurance, e temos bastante literatura que nos explica, pelo menos, parte das adaptações do organismo a este processo:
Através de um tapering bem feito (porque se está mal, os efeitos podem ser prejudiciais), um desportista consegue os seguintes efeitos:
- Aumenta a atividade do glucogénio sintase (maior teor de glucogénio hepatomuscular, aumentando os seus depósitos de energia);
- Aumenta a atividade do citrato sintase, uma das iso-enzimas de TCA (maior eficácia oxidando nutrientes para obter energia);
- Aumenta a volemia sanguínea, e a eritropoiese (maior capacidade de transportar oxigénio ao tecido muscular ativo). Shepley et al., 1992.
Em Desportos de Força
Os efeitos sobre a força não esão tão claros, e muitos são hipóteses ou podemos encontrar evidência mista a esse respeito.
Os principais princípios atribuidos a este fenómeno são:
- Aumento da eficiência neuromuscular;
- Aumento da área de secção transversal muscular;
- Alterações na ratio de tipos de fibras musculares, e
- Melhoria dos índices psicológicos (motivação, stress, estado de ânimo…).
Tipos de tapering
Podemos encontrar 3 tipos de tapering:
- Linear: A carga de treino diminui progressivamente de forma linear até alcançar um mínimo de pré-competição.
- Exponencial: A carga de treino diminui bruscamente ao princípio e atenua-se no final. Este tipo de tapering tem 2 variantes.
- Slow Decay: Uma diminuição mais controlada.
- Fast Decay: Uma diminuição mais drástica.
- Step: O “step taper” é uma redução drástica do treino e uma manutenção desta carga durante todo o taper.
Como se faz um tapering?
Um tapering faz-se modificando as variáveis de treino: volume, intensidade, frequência, duração…
Para produzir uma super compensação e expressar mais rendimento que antes do próprio tapering.
Mas, como adapto as variáveis de treino para poder melhorar o meu rendimento?
Vamos expôr dois casos práticos: um para atletas de resistência e outro para força.
Tapering para ciclismo
Um ciclista parte de um dia 0, onde treina 600km semanais, repartidos em 6 sessões por semana, a uma intensidade média de 65% da sua Frequência Cardíaca Máxima.
| Ciclismo | ||||
| Dias | Km por sessão | Sessões por semana | Intensidade média por sessão | Km por semana |
| 0 (antes de começar) | 100 | 6/6 – Semana 1 | 65% FC MAX. | 600 |
| 1 | 90 | 1/6 – Semana 1 | 65% FC MAX. | 445 |
| 2 | 85 | 2/6 – Semana 1 | 65% FC MAX. | |
| 3 | 80 | 3/6 – Semana 1 | 70% FC MAX. | |
| 4 | 70 | 4/6 – Semana 1 | 65% FC MAX. | |
| 5 | 65 | 5/6 – Semana 1 | 72% FC MAX. | |
| 6 | 55 | 6/6 – Semana 1 | 80% FC MAX. | |
| 7 | REST | REST | REST | |
| 8 | 48 | 1/4 – Semana 2 | 65% FC MAX. | 173 |
| 9 | 45 | 2/4 – Semana 2 | 80% FC MAX. | |
| 10 | REST | REST | REST | |
| 11 | 40 | 3/4 – Semana 2 | 90% FC MAX. | |
| 12 | 40 | 4/4 – Semana 2 | 50% FC MAX. | |
| 13 | REST | REST | REST | |
E descreve esta progressão durante o seu taper:

Tapering para powerlifting
Um powerlifer parte de um dia 0, onde treina 30 séries semanais de press de banco, repartidas em 3 sessões por semana, a uma intensidade média de 90% do último teste de 1RM.
| Powerlifting | ||||
| Dias | Sessões diárias de press de banco | Sessões por movimento por semana | %1RM | Séries totais por semana |
| 0 (antes de começar) | 10 | 3/3 – Semana 0 | 90 | 30 |
| 1 | 9 | 1/3 – Semana 1 | 90 | 24 |
| 2 | 0 | REST | REST | |
| 3 | 8 | 2/3 – Semana 1 | 95 | |
| 4 | 0 | REST | REST | |
| 5 | 7 | 3/3 – Semana 1 | 90 | |
| 6 | 0 | REST | REST | |
| 7 | 0 | REST | REST | |
| 8 | 0 | REST | REST | 15 |
| 9 | 8 | 1/2 – Semana 2 | 95 | |
| 10 | 8 | REST | REST | |
| 11 | 7 | 2/2 – Semana 2 | 102 | |
| 12 | 6 | REST | REST | |
| 13 | 5 | REST | REST | |
| 14 | 5 | REST | REST | |
E descreve esta progressão durante o seu taper:

Conclusões
- O Tapering é um processo de diminuição progressiva da carga de treino que nos permite competir num melhor estado de forma.
- Os padrões de taper exponenciais (progressivos) de rápida configuração (fast decay) são superiores a outros modelos de taper, mas talvez não no ciclismo.
- O volume é o principal fator da carga de treino a ajustar durante um taper, pelo que deves reduzir 40-60% do mesmo.
- A intensidade não deve ser alterada, o treino deve continuar a ser de qualidade.
- As alterações na frequência são pouco relevantes, e serão motivados pelo volume total de treino semanal durante o taper.
- A duração ideal de um taper é entre 8 e 14 dias, mas isto vai ser determinado pelo status de treino e pela carga do mesociclo anterior ao taper.
- O termo do treino total durante 3-5 dias resulta eficaz para aumentar o rendimento em desportos de força.
- O termo do treino em 3 semanas produz desadaptacções ao estímulo de treino ao nível estrutural e neurológico.
- Deixar de treinar está descartado em desportos de resistência, por causa das rápidas desadaptações que se produzem.
Fontes Bibliográficas
- Hughes, D. C., Ellefsen, S., & Baar, K. (2018). Adaptations to endurance and strength training. Cold Spring Harbor Perspectives in Medicine, 8(6).
- Estremera Rodrigo, A. (2017). Influencia de las variables socio-demográficas y laborales en los valores de estrés determinados con el modelo desequilibrio esfuerzo recompensa de Siegrist (Tesis Doctoral).
- Jensen, U. (2016). Design Considerations and Application Examples for Embedded Classification Systems.
- Zatsiorsky, V., & Kraemer, W. (1995). Science and practice of strength training. In Choice Reviews Online (Vol. 33).
- Shepley, B., MacDougall, J. D., Cipriano, N., Sutton, J. R., Tarnopolsky, M. A., & Coates, G. (1992). Physiological effects of tapering in highly trained athletes. Journal of Applied Physiology, 72(2), 706–711.
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