Quais são os benefícios da Exposição Solar? Quanto tempo é o recomendável para apanhar Sol? Analisamos o que diz a ciência ao respeito
Índice
- 1 Sol, Inimigo o Aliado?
- 2 Uma perspetiva histórica-evolutiva
- 3 Exposição ao sol e melanoma
- 4 Por que razão aumentou o melanoma
- 5 Exposição solar moderada
- 6 Maus hábitos quando apanhamos sol
- 7 População com défice de Vitamina D
- 8 Que quantidade de Sol é boa para a saúde?
- 9 Conclusões e mensagens para reter
- 10 Fontes Bibliográficas
- 11 Entradas Relacionadas
Sol, Inimigo o Aliado?
As autoridades de saúde de todo o mundo alertam sobre os perigos do sol e recomendam evitar ou diminuir a exposição à energía que emana do nosso astro rei
A justificação por detrás de ditas recomendações costumam recaír sobre o fotoenvelhecimento e o risco aumentado de cancro de pele.
Mas as coisas não são assim tão fácieis. Em Medicina e Saúde quase nunca o são.
Por outro lado, temos uma literatura científica crescente que nos mostra os vários benefícios que tem a exposição solar moderada.

Sim, estão a pensar na vitamina D, mas isto vai muito mais além de dita vitamina
Uma perspetiva histórica-evolutiva
O primeiro uso médico do sol como terapia nasceu em 1919 quando a comunidade científica percebeu que as chamadas “curas do sol” poderiam curar o raquitismo, uma doença devastadora que ocorre em crianças (1).
Este achado empírico foi seguido pela descoberta em 1924 de um precursor lipídico que, presente na pele e na dieta, podia ser convertido por radiação ultravioleta numa substância “anti-raquítica” (2).
Isso é, tratava-se da vitamina D e não foi até 1931 quando se definiu como tal. Posteriormente, nos anos 60, foi encontrada uma correlação entre a exposição solar e diferentes tipos de cancro, especialmente o cancro da próstata, coloretal e da mama, e foi lançado um novo estudo sobre a relação entre a exposição solar. Hipótese:
Pode ser o sol ou a vitamina D o fator protetor nesta variação do risco?

Desde então muito já se falou sobre o assunto, e se vos interessa o tema e o querem aprofundar, neste artigo publicado há vários anos podem ampliar conhecimentos (3)
Depois, o debate na comunidade científica centrou-se nos riscos da exposição solar e o uso de protetores solares, e até há poco tempo este foi o discurso predominante na Medicina.
“O sol é mau. Protege-te”. Sem nuances. Mas existem. E muitos…
E se há mecanismos cutâneos que nos protegem do sol, isto não significa que é mau de por si?
Exposição ao sol e melanoma
As três palavras de antes são chave: “Exposição solar desadequada”
É uma das coisas que têm que ficar claras depois de ler este post: há formas adequadas e formas menos adequadas de exposição solar.
Formas benéficas e formas prejudiciais.
O melanoma é um tumor que ninguém quer ter…
Trata-se de uma neoplasia que pode passar desapercebida durante muito tempo. Uma neoplasia que metastatiza com surpreendente facilidade.
Em suma, uma doença muito traiçoeira. Já vi rapazes e raparigas menores de 30 anos ver a sua vida a andar para trás por causa de um melanoma.
Portanto, o melanoma mete medo…
Mas criar na população a sensação de que tomar o sol vai aumentar muito as probabilidades de ter um melanoma, não apenas é reducionista, também é perigoso.
Sabemos que à população em geral não formada em saúde gosta de mensagens claras e simples de entender, com poucas nuances
Por que razão aumentou o melanoma
Obviamente, a insuficiência/deficiência de vitamina D continua a crescer também
Até um terço dos indivíduos na maioria dos países desenvolvidos têm défice de vitamina D, que longe de ser uma vitamina, atua em vários níveis mantendo a nossa homeostase como indivíduos. Então, a hipótese que começo a pensar sobre por que motivo houve um aumento na incidência e prevalência de melanoma maligno, é:
- A exposiçãõ solar que origina queimadura (sunburn sun exposure) continua a aumentar
- A exposição solar moderada que NÃO origina queimaduras foi diminuindo. Intervenção que, recordemos, é protetora.
Exposição solar moderada
O que esquecemos de dizer frequentemente é que, enquanto que a exposição solar que origina queimaduras aumenta consideravelmente o risco de melanoma, a exposição solar moderada (non-burning sun exposure) parece diminuir o risco. Trabalhadores ao ar livre têm menor incidência de melanoma que trabalhadores de interiores, como várias meta-análises demonstraram (5).
Por que mecanismos biológicos são aumentados os riscos de melanoma por causa da exposição solar intensa?
Basicamente, a radiação UVB produz dano no ADN mediante a criação de dímeros de pirimidina e radicais livres.
E então, porque é que os trabalhadores de exteriores têm menor risco que os de interiores?
- Enzimas reparadoras de DNA,
- Inibição do ciclo celular e crescimento celular,
- Menor proliferação,
- Maior apoptose,
- Maior diferenciação celular ou mecanismos anti-inflamatórios.
Maus hábitos quando apanhamos sol
O paradoxo é que muitos destes mecanismos a nível celular são induzidos pela mesma vitamina D que geramos devido à exposição solar (6)
A prevalência e incidência do melanoma tem aumentado dramaticamente.
De 1 caso por 100.000 habitantes em 1935 a 23 casos por 100.000 habitantes em 2012. As hipóteses avançadas em resposta a este facto apontam para o aumento dos métodos de diagnóstico e o empobrecimento da camada de ozono.
Mas nenhuma é demasiado convincente…

O que devemos começar a pensar é que a nossa conduta mudou consideravelmente
- Há uns anos, 25% dos americanos viviam no campo.
- Apenas 2% o faz nos dias de hoje.
População com défice de Vitamina D
A vitamina D é uma hormona com funções muito amplas e variadas em vários órgãos e sistemas
Tem recetores na maioria dos tecidos do organismo, facto que enfatiza a sua importância e ao mesmo tempo explica por que os estudos epidemiológicos associaram o défice de vitamina D a tantas doenças.
Hoje em dia a maioria das sociedades científicas consideram insuficiência de vitamina D a valores 20-30 ng/mL e a deficiência de vitamina D valores <20 ng/mL.
Que quantidade de Sol é boa para a saúde?
Vamos em seguida fazer um comentário sobre as principais condições que podemos relacionar com a exposição solar. É meritório dizer que quando falamos dos benefícios do sol, não podemos descartar a influência de múltiplos fatores de confusão relacionados com a exposição solar.
Mortalidade por qualquer causa
Chowdhury realizou uma meta-análise em 2014 de 73 estudos de coorte e 22 ensaios clínicos que encontraram uma associação inversa entre os níveis circulantes de vitamina D e o risco de morte por causa cardiovascular, cancro e outras causas (1).
Schottker encontrou o mesmo em 2014 (2). Lindqvist em 2014 estudou uma coorte de mulheres suecas que tinham sofrido um melanoma (Melanoma Southern Swden cohort) e concluiu que aquelas que evitavam sempre a exposição solar morriam mais.
Nas palavras de Lindqvist:
“Our finding that avoidance of sun exposure was a risk factor for all-cause death of the same magnitude as smoking is novel”
Se calhar los guias têm que retificar algumas coisas…
Cancro colo-retal
Rebel e os seus colaboradores encontraram em modelos animais como a exposiçaão moderada à radiação UV diminuia a incidência de tumores malignos do colón (4).
Além disso, compararam o efeito da suplementação com vitamina D, una dieta rica em vitamina D e a exposição solar.
Só esta última conseguia diminuir a incidência de tumores malignos
O último relatório do Instituto de Medicina dos Estados Unidos encontrou que aqueles pacientes com níveis de vitamina D >40 ng/mL tinham um risco de 42% menor de cancro coloretal em comparação com os pacientes que tinham níveis <10 ng/mL (5).
Cancro de mama
Mohr realizou uma meta-análise em 2015 em pacientes que tinham tido cancro da mama.
Encontrou que aquelas com níveis de vitamina D de >32 ng/mL tinham aproximadamente a metade de risco de morte por progressão do cancro relativamente às que tinham níveis <14 ng/mL (6).
Cancro da bexiga
Zhao e os seus colaboradores encontraram em 2016 uma redução de 30% do risco de cancro da bexiga quando as concentrações de vitamina D cresciam por cima de 30 ng/mL relativamente a <15 ng/ml (7).
Doença cardiovascular
Ou seja, como anteriormente referimos, o sol é muito mais do que vitamina D…
Síndrome metabólico e diabetes tipo 2
Vitezova em 2015 encontrou outra associação interessante entre os níveis de vitamina D e síndrome metabólico numa coorte de 3240 adultos mais velhos.
Curiosamente, a associação ainda estava presente após a adaptação para o IMC (9).
Clemente-Postigo et al., em 2015 encontraram outra descoberta semelhante: níveis baixos de vitamina D eram associadas com diabetes tipo 2 de forma independente ao IMC (10).
Dito tudo isto, o sol é muito mais do que vitamina D…
Conclusões e mensagens para reter
Podemos continuar com a doença de Alzheimer, deterioro cognitivo, Diabetes tipo 1, psoriase, doença hepática, intolerância a estatinas, miopia ou Obesidade, mas tenho de ir e fazer aqueles infográficos de que tanto gostam (se quiseres podemos fazer uma terceira parte).
Em suma, a mensagem que levaria comigo para casa depois de ler o artigo seria a seguinte:
- A exposição solar intensa e que origina queimaduras é negativa e está relacionada com maior risco de doenças graves. Por fim, devemos evitá-la sempre.
- Por outro lado, a exposição solar moderada e progressiva, não apenas não é negativa (até aos dias de hoje não se pôde relacionar de forma convincente com patologias graves), mas sim confere proteção contra múltiplas doenças em formas que ainda estamos a começar a entender.

O sol é muito mais do que vitamina D e provavelmente os seres humanos necessitam certa exposição solar para ter uma saúde ótima
Fontes Bibliográficas
- The Cure of Infantile Rickets by Sunlight. Am J Med Sci. 1922;
- FAT-SOLUBLE VITAMINS XXIII. THE INDUCTION OF GROWTH-PROMOTING AND CALCIFYING PROPERTIES IN FATS AND THEIR UNSAPONIFIABLE CONSTITUENTS BY EXPOSURE TO LIGHT. J Biol Chem. 1925;
- Bandera Merchan B, Morcillo S, Martin-Nuñez G, Tinahones FJ, Macías-González M. The role of vitamin D and VDR in carcinogenesis: Through epidemiology and basic sciences. J Steroid Biochem Mol Biol [Internet]. 2016;167:203–18.
- Gandini S, Sera F, Cattaruzza MS, Pasquini P, Picconi O, Boyle P, et al. Meta-analysis of risk factors for cutaneous melanoma: II. Sun exposure. Eur J Cancer [Internet]. 2005 Jan [cited 2015 Nov 4];41(1):45–60.
- Mark Elwood J, Jopson J. Melanoma and sun exposure: An overview of published studies. Int J Cancer. 1997;
- Sequeira VB, Rybchyn MS, Tongkao-On W, Gordon-Thomson C, Malloy PJ, Nemere I, et al. The role of the vitamin D receptor and ERp57 in photoprotection by 1α,25-dihydroxyvitamin D3. Mol Endocrinol. 2012;26(4):574–82.
- Chowdhury R, Kunutsor S, Vitezova A, Oliver-Williams C, Chowdhury S, Kiefte-De-Jong JC, et al. Vitamin D and risk of cause specific death: Systematic review and meta-analysis of observational cohort and randomised intervention studies. BMJ. 2014;
- Schottker B, Jorde R, Peasey A, Thorand B, Jansen EHJM, Groot LD, et al. Vitamin D and mortality: meta-analysis of individual participant data from a large consortium of cohort studies from Europe and the United States. Bmj [Internet]. 2014;348(jun17 16):g3656–g3656.
- Lindqvist PG, Epstein E, Landin-Olsson M, Ingvar C, Nielsen K, Stenbeck M, et al. Avoidance of sun exposure is a risk factor for all-cause mortality: Results from the Melanoma in Southern Sweden cohort. J Intern Med. 2014;
- Rebel H, Dingemanse-Van Der Spek C, Salvatori D, Van Leeuwen JPTM, Robanus-Maandag EC, De Gruijl FR. UV exposure inhibits intestinal tumor growth and progression to malignancy in intestine-specific Apc mutant mice kept on low Vitamin D diet. Int J Cancer. 2015;
- Jenab M, Bueno-de-Mesquita HB, Ferrari P, van Duijnhoven FJB, Norat T, Pischon T, et al. Association between pre-diagnostic circulating vitamin D concentration and risk of colorectal cancer in European populations:a nested case-control study. BMJ. 2010;
- Mohr SB, Gorham ED, Kim J, Hofflich H, Garland CF. Meta-analysis of vitamin D sufficiency for improving survival of patients with breast cancer. Anticancer Res. 2014;
- Zhao Y, Chen C, Pan W, Gao M, He W, Mao R, et al. Comparative efficacy of vitamin D status in reducing the risk of bladder cancer: A systematic review and network meta-analysis. Nutrition. 2016.
- Liu D, Fernandez BO, Hamilton A, Lang NN, Gallagher JMC, Newby DE, et al. UVA irradiation of human skin vasodilates arterial vasculature and lowers blood pressure independently of nitric oxide synthase. J Invest Dermatol. 2014;
- Vitezova A, Zillikens MC, Van Herpt TTW, Sijbrands EJG, Hofman A, Uitterlinden AG, et al. Vitamin D status and metabolic syndrome in the elderly: The Rotterdam Study. Eur J Endocrinol. 2015;
- Clemente-Postigo M, Muñoz-Garach A, Serrano M, Garrido-Sánchez L, Rosa Bernal-López M, Fernández-García D, et al. Serum 25-Hydroxyvitamin D and Adipose Tissue Vitamin D Receptor Gene Expression: Relationship With Obesity and Type 2 Diabetes. Obes Nutr. 2802;
- Geldenhuys S, Hart PH, Endersby R, Jacoby P, Feelisch M, Weller RB, et al. Ultraviolet radiation suppresses obesity and symptoms of metabolic syndrome independently of vitamin D in mice fed a high-fat diet. Diabetes. 2014;
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