A Microbiota é a chave para vencer a Obesidade?

A Microbiota é a chave para vencer a Obesidade?

O estudo da microbiota surpreendeu o setor científico de forma desmedida, até tal ponto que pode ser uma das chaves para tratar a obesidade e outras patologias associadas

Como podem umas criaturas que vivem no nosso interior, estão vivas, respiram, alimentam-se e produzem substâncias, controlar a nossa biologia de forma que ainda não chegámos a conhecer?

É uma pergunta que ainda não conseguimos respondr.

Se pararmos a várias pessoas na Gran Vía de Madrid, e lhes dissermos que hé umas criaturas que estão connosco desde os inícios da nossa espécie e modulam as nossas funções biológicas, pensariam que lhes estamos a falar do último episódio do quarto milénio

Microbiota, bactérias que habitam em nós

A microbiota é maior do que nós em número de células e genes, com até 3 trilhões de células, 1000 espécies diferentes e 3 milhões de genes. Nós, os pobres seres humanos, temos 10 vezes menos células e os nossos genes são aproximadamente 23.000.

Bactérias

Somos insignificantes comparados com os nossos bichinhos

Além do mais, estão neste planeta há muito mais tempo que nós. Se dividimos um mês de 30 dias a evolução do planeta Terra (um dia corresponde a 150M de anos), os primeiros seres procariotas vão aparecer já no dia +6, enquanto que os primeiros eucariotas vão aparecer no dia +13. Apenas nos últimos minutos da última hora do dia +30 (último dia) é quando os humanos (nós mesmos) entram em cena.

Portanto, a lição que temos que lter bem aprendida é que temos que respeitar a microbiota, o conjunto de bactérias que habita em nós

Seres que fermentam

As bactérias que compõem a nossa microbiota alimentam-se do que lhe fazemos chegar

Fermentação de fibra dietética

A este respeito, a descoberta dos Short Chain Fatty Acids, ou SCFAs foi revolucionário. Trata-se de uns pequenos ácidos gordos da cadeia curta que são produzidos pela microbiota ao fermentar a fibra dietética e que demonstraram ser benéficos a nível metabólico mediante diferentes vias.

Acredita-se que a microbiota é a grande responsável de que a fibra dietética saia bem vista em praticamente qualquer estudo epidemiológico ou de intervenção no qual seja avaliado o seu papel. Por quê?

Fermentação fibra

Porque é responsável por converter parte dessa fibra dietética em “coisas boas” para nós

Esta fermentação sacarolítica que transforma carboidratos acessíveis à microbiota (ou MACs) em SCFAs é, portanto e em linhas gerais, um processo benéfico que ocorre nas primeiras partes do tubo digestivo

Fermentação proteolítica

Existe outro tipo de fermentação, a fermentação proteolítica, que tem lugar no cólon distal quando alí a disponibilidade de MACs é baixa, e que transforma as proteínas e aminoácidos em substâncias que parecem não beneficiar tanto ao hóspede.

Estamos a falar de índoles, compostos fenólicos, ácidos gordos ramificados (BCFAs) ou aminas, tais como a TMA (trimetilamina), cadaverina ou putrescina.

Problema da Dieta Ocidental

É sabido que uma dieta ocidental, baixa em fibra fermentável, provoca um excesso de fermentação proteolítica ou um défice da benéfica fermentaçaõ sacarolítica, e isto é um facto fundamental no início e na manutenção de múltiplas patologias de corte metabólico como é o caso da Obesidade

Evidência que junta a Obesidade a uma Disbiose Intestinal

Como pode a microbiota influir em que uma pessoa mantenha e chegue a desenvolver Obesidade:

Melhoria da resistência à insulina

Uma estratégia nutricional muito em voga nos últimos anos consiste precisamente em aumentar a disponibilidade de carboidratos acessíveis à microbiota no cólon distal para aumentar a produção de acetato, propionato e butirato (os SCFAs que antes referi), além de succinato, os quais parecem ter demonstrado uma diminuição da resistência à insulina associada à obesidade, melhoria na perda de peso, sensação de saciedade e homeostase da glicose e dos lípidos (1)(2)(3).

Resistência à insulina

Ciclo da resistência à insulina

Isto pode ser conseguido aumentando a quantidade de prebióticos dietéticos, como por exemplo, o amido resistente ou a inulina

Efeito supressor do apetite

Um estudo em ratos demonstrou como os SFCAs têm um efeito supressor do apetite e a ingestão energética através de mecanismos que regulam o eixo intestino-cérebro. O acetato produzido no cólon pela microbiota pode passar a barreira hematoencefálica e alcançar o hipotálamo, produzindo um aumento na produção de lactato e GABA, que nestes animais diminuiram consideravelmente o apetite e a ingestão energética (4).

Microbiota e saciedade

Uma microbiota saudável produz mais saciedade

Aumentar o consumo energético

Os SCFAs também estão no ponto de mira porque, em princípio, têm potencial para aumentar o consumo energético do hóspede

Em ratos obesos, a administração oral de butirato produziu uma diminuição do peso corporal através de um aumento no gasto energético e oxidaçaõ lipídica (5). Este efeito foi associado com a regulação em alta da expressão de genes relacionados com a termogénesem como PGC1a ou UCP1 no tecido adiposo castanho. Mas não estamos a falar apenas de animais, em humanos temos dados “in vivo”.

Neste caso, uma infusão de acetato juntamente com outra mistura de SCFA (acetato, propionato, butirato) no cólon distal aumentou a oxidação lipídica e o consumo energético em descanso dos voluntários obesos ou com excesso de peso (6)

Peso corporal

Praticamente todos os estudos epidemiológicos e de intervençaõ em humanos mostram uma relação inversa entre a fibra dietética e o peso corporal, como comentava antes (7).

Suplementação com fibra

Não obstante, vários estudos de intervenção dietéticos demonstraram que uma suplementação a longo prazo com fibra fermentável aumenta a produção de hormonas que intervêm no processo de saciedade, diminuindo a ingestão energética espontânea em humanos (8)

Transplantar a Microbiota

Uma das investigações mais fascinantes em microbiota estudou o que acontecia se trasplantássemos microbiota de dois gémeos humanos, um obeso e outro magro, para ratinhas germ-free (ou seja, sem nenhum gérmen no seu interior).

Transplantar microbiota

O que aconteceu foi o esperado, a microbiota do gémeo obeso trasplantada em ratos magros germ-free, transformaram esses ratos magros em ratos obesos, estabelecendo algo muito importante: CAUSALIDADE (9)

Além disso, os ratos com a microbiota trasplantada do obeso mostraram:

  • Maior adiposidade,
  • Concentrações cecais (no cego, uma parte do cólon) de SCFAs, e
  • Maiores concentrações de monossacáridos e dissacáridos depois de um consumo de fibra.

Além disso, mostraram maior expressão de genes envolvidos na expressão de vários aminoácidos aromáticos e maiores níveis de BCAAs (aminoácidos plasmáticos ramificados) em plasma que os ratos com a microbiota do magro.

Estes achados sugerem fortemente que a microbiota de indivíduos com obesidade tem uma menor capacidade para fermentar completamente esses carboidratos acessíveis à microbiota e que o microbioma de indivíduos obesos contribui para a produção de metabolitos como os BCAAs que estão associados a um fenótipo Obeso e resistente à insulina (9)(10)

Conclusões

Até aqui a evidência de hoje. Nova e mais contundente seguirá a aparecer e abrindo as nossas bocas

No momento:

  • Aumenta a ingestão de fibra dietética,
  • Cuida a tua microbiota de agentes lesivos que estão muito presentes na nossa dieta e estilo de vida e, sobretudo,
  • Começa cedo.
A microbiota é formada desde o primeiro momento, não esperes a estar Obeso e ter resistância à insulina para atuar!

Vemo-nos no próximo post. Vamos continuar a emancipar-nos!

Fontes Bibliográficas

  1. Zhao L, Zhang F, Ding X, Wu G, Lam YY, Wang X, et al. Gut bacteria selectively promoted by dietary fibers alleviate type 2 diabetes. Science (80- ). 2018;
  2. Kovatcheva-Datchary P, Nilsson A, Akrami R, Lee YS, De Vadder F, Arora T, et al. Dietary Fiber-Induced Improvement in Glucose Metabolism Is Associated with Increased Abundance of Prevotella. Cell Metab. 2015;
  3. De Vadder F, Kovatcheva-Datchary P, Goncalves D, Vinera J, Zitoun C, Duchampt A, et al. Microbiota-generated metabolites promote metabolic benefits via gut-brain neural circuits. Cell. 2014;
  4. Frost G, Sleeth ML, Sahuri-Arisoylu M, Lizarbe B, Cerdan S, Brody L, et al. The short-chain fatty acid acetate reduces appetite via a central homeostatic mechanism. Nat Commun. 2014;
  5. Gao Z, Yin J, Zhang J, Ward RE, Martin RJ, Lefevre M, et al. Butyrate improves insulin sensitivity and increases energy expenditure in mice. Diabetes. 2009;
  6. Canfora EE, Van Der Beek CM, Jocken JWE, Goossens GH, Holst JJ, Olde Damink SWM, et al. Colonic infusions of short-chain fatty acid mixtures promote energy metabolism in overweight/obese men: A randomized crossover trial. Sci Rep. 2017;
  7. Menni C, Jackson MA, Pallister T, Steves CJ, Spector TD, Valdes AM. Gut microbiome diversity and high-fibre intake are related to lower long-term weight gain. Int J Obes. 2017;
  8. Cani PD, Joly E, Horsmans Y, Delzenne NM. Oligofructose promotes satiety in healthy human: A pilot study. Eur J Clin Nutr. 2006;
  9. Ridaura VK, Faith JJ, Rey FE, Cheng J, Duncan AE, Kau AL, et al. Gut microbiota from twins discordant for obesity modulate metabolism in mice. Science (80- ). 2013;
  10. Newgard CB, An J, Bain JR, Muehlbauer MJ, Stevens RD, Lien LF, et al. A Branched-Chain Amino Acid-Related Metabolic Signature that Differentiates Obese and Lean Humans and Contributes to Insulin Resistance. Cell Metab. 2009;

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Avaliação Relação Boa Microbiota e Obesidade

Maior saciedade - 100%

Maior consumo calórico - 100%

Menor resistência à insulina - 100%

Menor obesidade - 100%

100%

HSN Evaluação: 5 /5
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Sobre Borja Bandera
Borja Bandera
Borja Bandera, um jovem médico dedicado às áreas da nutrição, exercício e metabolismo, que combina a sua atividade clínica com a sua vocação divulgativa.
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