Conheces uma técnica que te possa ajudar a medir o esforço durante o exercício e programar os teus treinos? RPE, ou Intervalo de Esforço Realizado vai ser o nosso método
Este artigo foi pensado para ti, utilizador médio de uma sala de musculação, que se está a iniciar ou apesar de já estares à algum tempo a treinar, e que perante o grande bombardeio de informação que nos proporciona a internet, já não sabes discernir o que é real, o que está adulterado e o que é diretamente falso.
Tu, utilizador avançado, que tens vastos conhecimentos sobre planificação do treino, recomendo que também o leias para refrescar conceitos e talvez aprender alguma coisa nova ?
Índice
- 1 Intensidade vs Volume
- 2 O que é a Carga de Treino?
- 3 O que é o Volume e a Intensidade de Treino?
- 4 Alto Volume ou Alta Intensidade
- 5 Intensidade e Carga Externa
- 6 RPE vs 1RM
- 7 Uso de Encoders
- 8 Então, como medir o esforço?
- 9 RPE para hipertrofia e força
- 10 Autorregulação não é para todos
- 11 Conclusões
- 12 Referências bibliográficas
- 13 Entradas Relacionadas
Intensidade vs Volume
O objetivo que perseguimos com um treino, tenha a orientação que tiver (melhoria da força máxima, a hipertrofia, a velocidade, a capacidade cardiorrespiratória…) é traduzido em gerar uma adaptação, ou seja, que o efeito da carga física que produzem as sessões de treino gerem uma melhoria em quaisquer dos outcomes que tenhamos como objetivo melhorar.
A dinâmica de esforços é o conjunto de fatores que devemos ter em conta para programar os treinos, e apesar de que entre estes fatores podermos encontrar conceitos como:
- Volume,
- Intensidade,
- Tipo,
- Densidade, ou
- Frequência.
apenas os dois primeiros são aqueles que constituem a carga do treino:
Carga= Volume x Intensidade
O que é a Carga de Treino?
É aquela que a soma de fatores determinam o grau de fadiga que gera uma ou várias sessões de treino e condiciona, portanto, a recuperação necessária para criar uma sobre-compensação (adaptação) que possa melhorar o nível basal do início do treino.
Quanto maior for esta curva decrescente maior descanso vamos necessitar e maior será a curva crescente de compensação e de sobre-compensação do rendimento (até certos limites, a partir dos quais o dano orgânico é irreversível e podemos eventualmente chegar a colocar por debaixo do nível inicial depois da recuperação).

Figura I. Ciclo de sobre-compensação
O que é o Volume e a Intensidade de Treino?
Foi tradicionalmente definido como a quantidade de trabalho que desenvolvemos, enquanto que a intensidade é definida como a qualidade desse trabalho
Estes fatores são condicionantes um do outro, ou seja, manter ambas as variáveis elevadas é inviável a longo prazo, pelo que, em traços gerais, quando um está elevado, o outro vê-se diminuído e vice-versa.
Alternar a grandeza destas variáveis constitui a periodização básica do treino, o grau, tempo e frequência com a qual estas variáveis são modificadas, determina o tipo de planificação que se está a seguir.

Figura II. Relação inversa entre o volume e a intensidade do treino
Alto Volume ou Alta Intensidade
Desde os inícios da planificação desportiva existiu o debate de qual seria a variável mais relevante para melhorar o rendimento desportivo
Os macrociclos tradicionais dos anos 50 consistiam em processos de treino de altíssimo volume. Isto provocou melhorias até ao ponto onde continuar a aumentar o volume já não era viável, e nesse momento teve que recorrer-se à utilização de ajudas ergogénicas (PEDs) para o continuar a aumentar.

Figura III. Alterações na força em press banco, absoluta (A) e relativa (B); e no agachamento, absoluta (C) e relativa (D). (Mangine et al. 2015)

Figura IV. Aumento da área de secção transversal (CSA) antes do treino, depois de 6 semanas e depois de 12 semanas, utilizando diferentes percentagens de 1RM (G-20/40/60/80). (Lasevicius et al. 2018)
Intensidade e Carga Externa
É importante não confundir a intensidade com a carga externa (ou seja, com o peso que metemos na barra)
Apesar de que esta pode ser uma forma simples de quantificar a intensidade do treino, existem limitações.
Um sujeito que tem uma grande força muscular pode fazer agachamentos com 150kg, enquanto tu as fazes com 60kg. Mas quando ambos acabam a série, tu não vais aguentar mais enquanto que ele pode fazer mais 4 repetições.
RPE vs 1RM
Isto leva-nos à seguinte questão: existem muitas formas de quantificar a intensidade do treino
Entre elas, de certeza que conheces a planificação com base à percentagem de 1RM.
A 1RM é a carga externa máxima que podes mover num determinado exercício com um determinado intervalo de movimento. Com base nesta carga, podem estabelecer-se percentagens que se correlacionam com o máximo número de repetições que vais poder fazer com essa carga.

Figura V. Relação entre o número de repetições potencialmente realizáveis com base na percentagm de 1RM
No entanto, este método possui grandes variações entre indivíduos, já que o organismo tende à especificidade do treino.
Outra grande limitação é a variabilidade intra-sessões.
Uso de Encoders
Outro sistema de treino é o Velocity Based Training (VBT). Apesar da sua elevada fiabilidade e validade, necessita de material específico (como encoders) e vastos conhecimentos de planificação baseada na diminuição da velocidade do levantamento que determina o grau de fadiga alcançado.
Então, como medir o esforço?
Como já expliquei anteriormente, a carga interna é a maior determinante da planificação baseada na intensidade do treino
Para tanto, podemos utilizar a melhor e mais acessível ferramenta com a qual contamos para o efeito: a autorregulação. Habitualmente é quantificada através da RPE, isto é, o ratio de perceção de esforço que experimentamos numa série.
O RPE foi originalmente desenhado por Borg (1962) numa escala de avaliação del esforço 6-20. No entanto, no treino fora do contexto clínico e da investigação, costumamos utilizar a modificação de Foster et al. (2001) onde foi adaptado o intervalo de avaliação para uma escala de 0 a 10.
No treino nas salas de musculação, está relacionado com o Repetitions in Reserve (RIR), ou seja, quanto mais nos aproximamos do 10, menos repetições podemos continuar a realizar; para ter a referência podem consultar a seguinte tabela:

Figura VI. Relação entre o ratio de esforço realizado (RPE, coluna da esquerda) e repetições em reserva (RIR, coluna da direita). (Zourdos et al. 2016)
RPE para hipertrofia e força
Qual a RPE que devemos utilizar para programar o nosso treino?
Esta é uma pergunta especialmente complexa, já que ainda está em investigação. Não obstante, e apesar de que não é claro que o treino até ao falho muscular seja necessário para maximizar as adaptações do treino, sabemos que é necessário uma elevada perceção de esforço para gerar adaptações.
Regra geral, quanto maior for a intensidade do treino melhor, mas devemos ter em conta que a capacidade do desportista condiciona fortemente a quantidade de séries que pode realizar a alta intensidade e mesmo assim continuar a recuperar-se e a progredir.

Figura VII. Adaptação negativa (diminuição crónica do rendimento) por excesso de carga de treino
Autorregulação não é para todos
Também sabemos que a autorregulação é um sistema que necessita de ser praticado para poder avaliar corretamente a intensidade que estamos a aplicar
Na tabela seguinte podemos comprovar como com o 100% do 1RM dos desportistas (RPE 10), os indivíduos treinados eram capazes de realizar a intensidade aplicada com maior precisão que os sujeitos sem treino, dos quais uma grande quantidade infra estimava o esforço realizado.

Figura VIII. Estimativa do RPE a 100% 1RM em indivíduos treinados (coluna esquerda) e sem treino (coluna direita) (Zourdos et al. 2016)
Aproximando-se mais a um extremo ou outro do intervalo em função do mesociclo (momento da temporada) na qual nos encontramos, e com a máxima intensidade possível que nos permita recuperar e gerar adaptações positivas.
Conclusões
Existem diferenças significativas entre a planificação autorregulada de força ou hipertrofia, com a salvaguarda de que a força máxima costuma ser treinada com maior frequência (mais vezes por semana) para melhorar a especificidade dos levantamentos e isto pode aumentar significativamente a carga de treino.

Ou vamos realizá-lo nos dias de menor intensidade ou então somos uns deuses genéticos. Ou descansamos mais, ou então acabaremos com o sistema nervoso em curto-circuito (excesso de treino real)
O que vai condicionar o desenvolvimento, acrescido da força máxima ou a hipertrofia, é o intervalo de repetições. É sabido que a força máxima é desenvolvida num intervalo de repetições mais baixo (1-5), alta carga; enquanto que para a hipertrofia, o intervalo de repetições é menos relevante (6-35); do mesmo modo que a carga, desde que o esforço seja elevado.

Figura IX. Diagrama de árvore que determina a superioridade de treinar com altas cargas (tendência para a direita) contra baixas cargas para aumentar a força máxima. (Schoenfeld, Grgic, Ogborn & Krieger, 2017)
Referências bibliográficas
- Helms, E. R., Cronin, J., Storey, A., & Zourdos, M. C. (2016). Application of the Repetitions in Reserve-Based Rating of Perceived Exertion Scale for Resistance Training. Strength and Conditioning Journal, 38(4), 42–49.
- Lasevicius, T., Ugrinowitsch, C., Schoenfeld, B. J., Roschel, H., Tavares, L. D., De Souza, E. O., … Tricoli, V. (2018). Effects of different intensities of resistance training with equated volume load on muscle strength and hypertrophy. European Journal of Sport Science, 18(6), 772–780.
- Mangine, G. T., Hoffman, J. R., Gonzalez, A. M., Townsend, J. R., Wells, A. J., Jajtner, A. R., … Stout, J. R. (2015). The effect of training volume and intensity on improvements in muscular strength and size in resistance-trained men. Physiological Reports, 3(8).
- Schoenfeld, B. J., Grgic, J., Ogborn, D., & Krieger, J. W. (2017). Strength and Hypertrophy Adaptations Between Low- vs. High-Load Resistance Training: A Systematic Review and Meta-analysis
- Zourdos, M. C., Klemp, A., Dolan, C., Quiles, J. M., Schau, K. A., Jo, E., … Blanco, R. (2016). Novel Resistance Training-Specific Rating of Perceived Exertion Scale Measuring Repetitions in Reserve. Journal of Strength and Conditioning Research, 30(1), 267–275.
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