Desde há décadas continuam a repetir-se os mesmos princípios para a formação de massa muscular: “treina, come e dorme”
Mas… o que diz a ciência relativamente a este assunto? quais são os fatores que podem boicotar o nosso objetivo de ganhar massa muscular? o que impede a formação de massa muscular?
Nutrição
Em primeiro lugar e, sem dúvida, a nutrição tem um papel fundamental sobre as variações na massa muscular dos indivíduos
No seu ganho, perda e manutenção.
Variáveis que controlam a perda de massa muscular
Existem dois aspetos fundamentais que devemos controlar para evitar a perda de massa muscular consequência de uma nutrição desadequada:
- Equilíbrio energético
- Consumo de proteína
Antes de mais, devemos destacar a forte ausência de literatura científica com amostras replicáveis para a maioria dos leitores deste artigo. Quando falamos de perda de massa muscular e de nutrição, a maioria de ensaios de qualidade são realizados sobre amostras nas quais estas medições têm importância clínica: mulheres com menopausa e/ou pós-menopausa e idosos.
Superávit, Normocalórico e Défice
Em primeiro lugar, temos que falar dos três cenários nos quais nos podemos referir em relação ao consumo calórico e ao seu efeito sobre a massa muscular:
- Um superávit leva-nos a ganhar massa muscular;
- Uma alimentação isocalórica (ou seja, que consumimos a mesma energia que gastamos), não nos fará ganhar massa muscular, salvo em casos muito concretos; y
- Uma alimentação com défice calórico vai levar-nos a perder massa muscular; a quantidade de perda está condicionada pela dimensão do défice calórico.

Como calcular as calorias que necessitas por dia?
Estudo efeitos do défice calórico
Isto é o que mostraram Sénéchal et al. (2012), os quais realizaram uma análise dos efeitos do défice calórico sobre 2 grupos de mulheres obesas pós-menopausa.

Figura I. Efeitos de uma perda de peso rápida (Rapid WL) vs perda de peso lenta (Slow WL) sobre a composição corporal e os fatores de risco metabólicos. (Sénéchal et al. 2012)
O objetivo do estudo era gerar uma perdida de peso de 5% nestas mulheres, a amostra foi dividida em dois grupos, em função do tempo determinado para produzir esta perda (5 vs 15 semanas) e, portanto, do défice gerado (-1338 vs -465kcal).
Como se pode observar na imagem, as mulheres do grupo de perda de peso rápido perderam aproximadamente a mesma quantidade de peso que as do grupo de perda de peso lento; no entanto, a proveniência desse peso foi diferente:
Mas o mais significativo de tudo foi a perda de 7,25 vezes mais massa livre de gordura que o grupo de perda de peso lento (2,9 vs 0,4), no ensaio não é realizada uma análise da proveniência dessa perda de massa livre de gordura (que pode ser massa muscular, massa óssea, visceral, hídrica…).
Pelo que o tamanho do défice calórico condiciona e muito a quantidade de massa muscular perdida. Se não queres perder a massa muscular que ganhaste, controla o teu défice calórico.
Consumo de proteína para evitar a perda de massa muscular
Temos que destacar que a repartição de nutrientes neste ensaio foi realmente inadequado se o objetivo é não perder massa muscular (55% CHOs, 30% Lip, 15% Prot).
Sobre este aspeto não há dúvida de que um consumo inadequado de proteína leva a uma perda de massa muscular associada ao mesmo. No entanto, existe um forte desconhecimento sobre a quantidade de proteína necessária para evitar estas perdas, e não é para menos, já que não existe um consenso a esse respeito-
Não obstante, devemos ter em conta que as recomendações atuais para maximizar a síntese de proteína muscular é consumir 0,4-0,55g de proteína/kg de peso corporal 4 vezes ao dia.

Devendo-se aumentar esta quantidade em populações concretas que apresentam resistência anabólica (como os idosos), e pessoas submetidas a fortes défices calóricos
Assim o demonstra Bopp et al. (2013) em mulheres pós-menopausa, onde se submeteu a amostra a um programa de perda de peso, divididas em 2 grupos, de consumo baixo e alto de proteína (0,47g vs 0,8g de proteína/kg/dia ).
Os autores alcançaram uma clara conclusão, e foi que:
Cada aumento de 0,1g de proteína/kg de peso/dia no consumo de proteína dietética, os participantes perdem 0,62kg. menos de massa livre de gordura (Bopp et al. 2013)

Figura II. Relação entre alterações na quantidade de massa magra (kg) (eixo Y) em relação ao consumo de proteína diário (g/kg/dia) (eixo X) (Bopp et al. 2013)
Devemos ter em conta que ambos os consumos de proteína encontram-se bastante por debaixo das recomendações para otimizar a MPS. No entanto, 0,8g/kg/dia continua a ser a RDA clássica.
Um baixo consumo proteico encontra-se associada indubitavelmente a uma perdida de massa muscular!
Descanso
“Descanso”, é um conceito vasto que inclui uma grande quantidade de fatores relevantes para o ganho e/ou não perda de massa muscular. No entanto, neste artigo vamos centrar-nos no aspeto mais clássico do descanso, o período do sono.
O sono é um processo orgânico certamente complexo, pelo que não vamos explicar a importância dos diferentes períodos de latência das fases do sono, e vamos focar a nossa atenção desde um ponto de vista muito prático para o objetivo que nos interessa.
Estudo da quantidade e qualidade do sono
Em primeiro lugar, existe um ensaio com uma grande amostra, de 10,125 estudantes chineses, onde foi relacionada a quantidade e qualidade do sono com o rendimento em teste de força e que, apesar de não ser um marcador direto da massa muscular, é um condicionante indireto da mesma.
A qualidade e atualidade da publicação do estudo faz com que valha a pena inclui-lo nesta publicação. Chen et al. (2017) mostraram o seguinte:

Figura III. Relação entre qualidade do sono (pobre, normal e boa) e resultado em teste de pressão manual (newtons) em homens e mulheres (Chen et al. 2017)
Aqueles que tinham uma boa qualidade do sono eram capazes de mostrar em redor de 2 Newtons mais de força que aqueles que tinham uma má qualidade do sono. Em mulheres, a diferença não é tão elevada, mas mesmo assim os dados parecem sólidos.

Figura IV. Relação entre quantidade de sono (<7, 7-8, >8 horas/dia) e resultado em teste de pressão manual (newtons) em homens e mulheres (Chen et al. 2017)
Horas de sono ou horas de qualidad do sono?
É muito habitual ouvir dizer as pessoas que defendem que mesmo que durmas poucas horas, se são de qualidade, servem…
Pois…. parece que não é bem assim. Depois de deixar clara a associação entre qualidade do sono e força, Chen et al. (2017) mostraram que uma variação tão pequena como dormir 7 horas ou dormir entre 7 e 8 horas se repercutia significativamente na força muscular que vem justificada no teste de pressão manual.
Novamente, os dados são significativos em homens, mas isso não acontece em mulheres apesar de parecer haver uma leve variação que confirma a hipótese.

O corpo de evidência que relaciona sono e massa muscular é pobre e de má qualidade
Uma das explicações possíveis é a recolha por Leproult & Van Cauter (2011) onde submeteram a 10 jovens saudáveis a um ensaio de condições de descanso e restrição parcial do sono para medir os perfis de testosterona e cortisona séricos em 24 horas.
Os resultados são conclusivos; os adolescentes sofreram uma descida de entre 10-15% nos níveis de testosterona ao restringir o sono de 10 a 5h. diárias.
Temos que pensar que dormir 5 horas diárias é a realidade de muita gente que pretende aumentar a sua massa muscular; pelo que ficar acordado um pouco mais para fazer mais uma refeição é mais importante que dormir um pouco mais?

Figura V. Perfil de concentrações séricas de testosterona (esquerda) e cortisona (direita) em condições de descanso (linha contínua) e restrição parcial do sono (linha descontínua) durante 24 horas. (Leproult & Van Cauter, 2011)
No entanto, como mostra a imagem, o perfil sérico de cortisona, ao contrário do que a maioria da população acredita, não sufreu variações significativas depois da restrição de sono parcial.
Se quiseres evitar um ambiente hormonal pouco favorável para a manutenção da massa muscular, dorme muito e bem.
Dormir melhor
Existem certos suplementos para dormir que podem ajudar-te a a dormir melhor
O mais relevante, sem dúvida, é a melatonina. Uma neuro hormona que controla os ciclos do sono/vigília em humanos e animais e que se vê condicionada negativamente por muitos comportamentos que realizamos diariamente (consumo de estimulantes, exposição a luz azul emitida por dispositivos eletrónicos…).
Treino
Em primeiro lugar, como expliquei nos anteriores artigos sobre a sarcopenia e a memória muscular, o treino é necessário para a criação de novos mionúcleos e estimular a síntese proteica através da amplificação de processos enzimáticos destinados a recuperar o dano produzido na célula muscular depois do treino.

Sem tensão mecânica (algo que não significa sempre, carga externa), o tecido muscular sofre um período de atrofia
Treinar é necessário para manter a massa muscular
No entanto, em muitas ocasiões faz-se referência ao excesso de treino como causa de perda de massa muscular
O excesso de treino é um quadro clínico multifatorial cujos sinais ainda não foram determinados com clareza. O excesso de dano muscular (como conceito mais correto) pode ser ele sim um fator que condicione um ambiente anabólico/catabólico do tecido musculo-esquelético.
A imagem em baixo é um clássico em qualquer classe de fisiologia que nos serve para o explicar convenientemente:

Figura VI. Estados celulares (normal, dano reversível e dano irreversível). Recuperado de: https://slideplayer.com/slide/8937201/
Sem estímulo, a célula encontra-se em estado basal (“normal”). Com o treino produzimos um dano no miócito, que faz com que este sofra uma lesão reversível, onde a célula sofre um processo de “swelling” e são desencadeados uma série de processos orgânicos para o reparar (leucócitos, macrófagos, células satélite, mioquinas, EROS…).
Não obstante, se seguimos um plano de treino excessivamente exigente para a nossa capacidade, podemos produzir um dano irreversível na célula, que comprometa a integridade da membrana fosfolipídica e do/os núcleo/s celular/es degenerando numa necrose celular, ou seja, perdendo uma célula muscular.
Quando temos dores musculares durante 7 dias depois de um treino de pernas, ou a urina sai tipo refresco de cola (rabdomiólise), podemos falar de excesso de treino, mas de verdade…
Fontes Bibliográficas
- Leproult, R., & Van Cauter, E. (2011). Effect of 1 week of sleep restriction on testosterone levels in young healthy men. JAMA, 305(21), 2173–2174. https://doi.org/10.1001/jama.2011.710
- Senechal, M., Arguin, H., Bouchard, D. R., Carpentier, A. C., Ardilouze, J.-L., Dionne, I. J., & Brochu, M. (2012). Effects of rapid or slow weight loss on body composition and metabolic risk factors in obese postmenopausal women. A pilot study. Appetite, 58(3), 831–834. https://doi.org/10.1016/j.appet.2012.01.014
- Bopp, M. J., Houston, D. K., Lenchik, L., Easter, L., Kritchevsky, S. B., & Nicklas, B. J. (2008). Lean mass loss is associated with low protein intake during dietary-induced weight loss in postmenopausal women. Journal of the American Dietetic Association, 108(7), 1216–1220. https://doi.org/10.1016/j.jada.2008.04.017
- Knowles, O. E., Drinkwater, E. J., Urwin, C. S., Lamon, S., & Aisbett, B. (2018). Inadequate sleep and muscle strength: Implications for resistance training. Journal of Science and Medicine in Sport, 21(9), 959–968. https://doi.org/10.1016/j.jsams.2018.01.012
- Chen, Y., Cui, Y., Chen, S., & Wu, Z. (2017). Relationship between sleep and muscle strength among Chinese university students: a cross-sectional study. Journal of Musculoskeletal & Neuronal Interactions, 17(4), 327–333.
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